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Em carta, professor da UFR pede perdão após morte do filho esquecido em carro em Rondonópolis 

O professor de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), Jofran Oliveira, publicou uma carta aberta em homenagem ao filho, Levi José Trindade e Oliveira. A criança, de 5 anos, foi encontrada morta dentro de um carro no campus da universidade, em Rondonópolis (a 215 km de Cuiabá), em Mato Grosso, após o pai esquecer o menino no veículo antes de ir trabalhar.

No texto, Jofran relata o vínculo familiar, descreve momentos da convivência com a criança e afirma que o filho foi “muito desejado por toda a família”. Ele também relembra passagens da infância e da relação da criança com a mãe, a irmã e demais familiares.

Levi é descrito como um presente desejado por toda a família e destaca a chegada da criança em meio a um período de luto familiar. “Você chegou em nossas vidas no momento em que mais precisávamos de você, quando nossos corações ainda choravam a partida do seu avô José, da sua tia Jó e do seu tio Júnior”, escreveu.

Leia mais – Criança é encontrada morta dentro de carro no campus da UFMT em Rondonópolis; vídeo

Ele também relata a forte ligação do menino com a mãe, a quem chama de “guerreira”, e com a irmã. “Você foi muito desejado por toda a sua família, e a sua chegada nos virou pelo avesso. Sua mãe foi uma guerreira. Teve que tomar injeções todos os dias enquanto você estava na barriginha dela. Às vezes ela até chorava com medo da injeção, igualzinho você”, escreveu.

O professor detalha ainda momentos do nascimento da criança e a relação intensa com a família desde os primeiros dias de vida. “Quando você saiu desse forninho ficamos muito emocionados”, escreveu, em referência ao parto. “Confesso que nunca vi um amor tão lindo quanto o seu com a sua mãe. Puro, forte, intenso”, acrescentou.

Ele cita ainda a relação da criança com a irmã, a quem chama de “Nainha”, e afirma que os dois tinham uma convivência marcada por brincadeiras e proximidade.

“Ela te ensinou muitas coisas, mas tenho certeza que ela aprendeu muito com você também, especialmente a ser a irmã, protetora, amorosa, brincalhona e divertida, que assistia a todos os seus desenhos favoritos e que fazia os docinhos que você amava, só pra ver a alegria nos seus olhinhos. Vou te contar: Sua Nainha dizia que não gostava quando você a chamava de ‘maninha’, mas na verdade amava o jeitinho especial que você implicava com ela. Lembra quando ela pedia para ser deixada primeiro na escola, e você logo gritava que eu tinha que deixar você primeiro? Era um jeitinho que ela usava para você não reclamar de ir à escola. Ela amava quando pedia um pouco do que você estava comendo ou bebendo e você respondia que não podia compartilhar porque estava ‘cheio de baba’. Ela amava brincar com você de qualquer coisa, porque, na verdade, o que ela mais queria era estar perto de você, do irmão que ela tanto pediu a Deus”, escreveu.

O professor também menciona a avó da criança e o carinho entre os dois. “Ela tinha todo o tempo do mundo, mesmo quando estava cansada ou dormindo. Certamente ela jamais vai esquecer do seu rostinho lindo acordando-a na cama com um ‘Bom dia vovozinha!’, para depois voltar a dormir mais um pouquinho junto com ela. Eu via aquela cena e meu coração se aquecia”, afirmou, ao relatar momentos em família.

Ao longo da carta, Jofran descreve a rotina da casa como marcada pela presença do menino, dizendo que “parece um museu em sua homenagem”.

Ele também relata a ausência sentida no cotidiano após a morte da criança. “Saiba que vemos a sua presença em tudo, o dia inteiro: nos seus brinquedos espalhados pela casa, no seu shampoo e nas escovas de dentes nos banheiros, nas suas guloseimas que ficaram na geladeira, nos rabiscos que você deixou nas paredes, na cama que ficou imensa sem você”, disse.

O professor demonstra forte abalo emocional e pede perdão pelo ocorrido.

“Agora vou ter que respirar fundo. Preciso te pedir perdão. Já pedi perdão a Deus e aqueles que te amam. Como pude esquecer a minha vida naquele carro? Por que isso aconteceu com você, meu filhinho? E por que dessa forma? São perguntas que eu me faço desde aquele instante. Naquele momento, me encontrei no vale da sombra da morte, sozinho, sem fé. Sem desculpas, só culpa. Meu mundo explodiu, meu coração quebrou em mil pedaços, e eu perdi minha identidade. Perdi o que eu achava ser a minha missão na terra: ‘evoluir por meio da paternidade e da família’”, disse.

Em outro trecho, ele afirma viver o que chamou de maior dor da vida e diz carregar a culpa pela tragédia.

“Desejei profundamente trocar de lugar com você. Senti a maior vergonha que jamais imaginei ser capaz de sentir. Deus me deu um tesouro para amar e cuidar, e eu me descuidei. Perdão, meu amor. Perdão meu filhinho. A minha fragilidade nos levou a uma tragédia, e eu levarei essa dor dentro do meu coração pelo resto da minha vida”, declarou.

A família tem enfrentado o luto com apoio de amigos, parentes e da comunidade religiosa. Segundo ele, a fé e as mensagens recebidas têm ajudado a lidar com o momento.

Ele afirma ainda que tem buscado apoio na fé e na comunidade para enfrentar o luto.

“Vemos a presença de Deus em muitos detalhes, e isso tem nos mantido de pé, mesmo diante da tormenta e do sofrimento causados por essa tragédia. E não estamos mais sozinhos. Deus e uma comunidade imensa estão conosco”, acrescentou.

Ao final da carta, ele se despede do filho e reforça o sentimento de perda.

“Serei eternamente grato por ser o seu papaizito. Você me transformou na sua chegada e na sua partida. E o buraco que está em meu coração eu ofereço a Deus, para que Ele faça de mim uma pessoa melhor e um instrumento da vontade dEle aqui na terra. Fica com Deus meu filhinho, e eu ficarei aqui aguardando pelo dia de te reencontrar no céu. Te amei, te amo e pra sempre te amarei. Do seu eterno papaizito, Jofran”, finalizou.

O caso ocorreu no dia 19 de março, quando a criança foi encontrada morta dentro de um veículo estacionado no campus da UFR, em Rondonópolis. Segundo a Polícia Militar, o pai havia deixado o menino no carro antes de ir trabalhar e, ao retornar, encontrou a criança sem sinais vitais.

Repórter MT

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