{"id":6922,"date":"2025-01-04T17:02:56","date_gmt":"2025-01-04T21:02:56","guid":{"rendered":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/?p=6922"},"modified":"2025-01-04T17:03:49","modified_gmt":"2025-01-04T21:03:49","slug":"o-rico-e-lazaro-e-o-principio-hermeneutico-da-inversao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/index.php\/2025\/01\/04\/o-rico-e-lazaro-e-o-principio-hermeneutico-da-inversao\/","title":{"rendered":"O rico e L\u00e1zaro e o princ\u00edpio hermen\u00eautico da invers\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A par\u00e1bola do rico e L\u00e1zaro, narrada por Jesus em Lucas 16.19-31, \u00e9 uma das hist\u00f3rias mais intrigantes e impactantes do Novo Testamento. Por meio dela, Jesus confronta diretamente os valores sociais e espirituais de seu tempo, questionando a rela\u00e7\u00e3o entre riqueza, pobreza e espiritualidade. Esta narrativa, \u00fanica em seu g\u00eanero, transcende as realidades cotidianas e aponta para verdades eternas, utilizando o recurso ret\u00f3rico da invers\u00e3o para subverter expectativas e ressaltar os valores do Reino de Deus. Este texto se prop\u00f5e a explorar os aspectos sociais, teol\u00f3gicos e hermen\u00eauticos dessa par\u00e1bola, destacando sua relev\u00e2ncia e os ensinamentos que ela carrega para a compreens\u00e3o da justi\u00e7a divina e das responsabilidades humanas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O rico e L\u00e1zaro poder classificado como par\u00e1bola?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em Lucas 16.19-31, Jesus conta uma par\u00e1bola conhecida como \u201cO rico e L\u00e1zaro\u201d. Klyne Snodgrass observa que esta par\u00e1bola tem um car\u00e1ter \u00fanico e not\u00f3rio. \u201cSomente nela as personagens ganham nomes e somente dela uma par\u00e1bola de Jesus transcende a realidade quotidiana e se concentra na vida por vir\u201d (Compreendendo todas as par\u00e1bolas de Jesus. 2014, p. 589). Alguns se questionam se a hist\u00f3ria \u00e9 de fato uma par\u00e1bola ou n\u00e3o. Snodgrass, entretanto, afirma que \u201cLucas, seguramente, via esta hist\u00f3ria como uma par\u00e1bola. Ela aparece em meio a uma cole\u00e7\u00e3o de par\u00e1bolas, possivelmente numa posi\u00e7\u00e3o de quiasmo, formando um paralelo com a par\u00e1bola do Rico Insensato, e utiliza exatamente as mesmas palavras introdut\u00f3rias. Isso leva a crer que ela seja, sem sombra de d\u00favida, uma par\u00e1bola\u201d (2014, p. 598). Stanley M. Horton salienta que por ser uma par\u00e1bola, n\u00e3o podemos concluir que o relato \u00e9 menos importante, pois \u201cmesmo em suas par\u00e1bolas Jesus nunca disse qualquer coisa enganosa ou que fosse contr\u00e1ria \u00e0 verdade\u201d (O Ensino B\u00edblico das \u00daltimas Coisas, 2013, p. 49).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O contexto social dos tempos de Jesus<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria que Jesus conta a respeito de L\u00e1zaro e do rico exemplifica a situa\u00e7\u00e3o social de Israel no primeiro s\u00e9culo; pois, enquanto alguns desfrutavam de todo conforto, outros sofriam terr\u00edveis priva\u00e7\u00f5es. No relato inicial h\u00e1 uma informa\u00e7\u00e3o importante sobre o rico: \u201cOra, havia um homem rico, e vestia-se de p\u00farpura e de linho fin\u00edssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente\u201d (vs. 19). Os detalhes saltam aos olhos na descri\u00e7\u00e3o de Jesus sobre o rico. Usando \u201cum manto de cor p\u00farpura\u201d (cor da realeza) e roupas de \u201clinho fino\u201d (tecido dispon\u00edvel apenas a pessoas abastadas da \u00e9poca) fica claro que sua condi\u00e7\u00e3o social era bastante privilegiada. Jesus destaca que \u201cHavia tamb\u00e9m um certo mendigo, chamado L\u00e1zaro, que jazia cheio de chagas \u00e0 porta daquele. E desejava alimentar-se com as migalhas que ca\u00edam da mesa do rico; e os pr\u00f3prios c\u00e3es vinham lamber-lhe as chagas\u201d (vs. 20-21). Enquanto o rico desfrutava de tudo aquilo que o dinheiro podia lhe oferecer, o mendigo L\u00e1zaro, sofria com as chagas e priva\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Klyne Snodgrass comenta que \u201ca comida que ca\u00eda da mesa do homem rico n\u00e3o se tratava de migalhas acidentais, mas peda\u00e7os de p\u00e3o utilizados para a limpeza das m\u00e3os que eram atirados embaixo da mesa\u201d (2014, p. 597).<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos judeus considerariam que o rico era aben\u00e7oado por Deus e o pobre era amaldi\u00e7oado. Nos tempos de Jesus, riqueza era sin\u00f4nimo de ben\u00e7\u00e3o de Deus, e pobreza, de maldi\u00e7\u00e3o. Mas, diz Jesus, \u201caconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abra\u00e3o; e morreu tamb\u00e9m o rico e foi sepultado. E, no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abra\u00e3o e L\u00e1zaro, no seu seio\u201d (vs. 22-23). Ambos morreram, mas s\u00f3 h\u00e1 men\u00e7\u00e3o do sepultamento do rico. Snodgrass destaca que \u201co sepultamento era extremamente importante no Mundo Antigo, e um cad\u00e1ver que ficasse exposto ao ar livre era sinal da maldi\u00e7\u00e3o divina\u201d (p. 597). Embora n\u00e3o haja men\u00e7\u00e3o do sepultamento de L\u00e1zaro, a \u201csua recep\u00e7\u00e3o no seio de Abra\u00e3o subverte qualquer ideia de que ele tenha sido amaldi\u00e7oado. (&#8230;) O seio de Abra\u00e3o, claramente, representa uma imagem da honra e tamb\u00e9m pode apontar para intimidade (&#8230;)\u201d (p. 597). Segundo Fritz Rienecker e Cleon Roger, a palavra grega \u03ba\u03cc\u03bb\u03c0\u03bf\u03bd&nbsp;<em>(seio)<\/em>, \u201cindica lugar de honra num banquete\u201d (Chave lingu\u00edstica do Novo Testamento Grego, 1995, p. 141). O rico, por outro lado, estava no hades (\u1f85\u03b4\u1fc3), em tormento, ou tortura (\u03b2\u03b1\u03c3\u03ac\u03bd\u03bf\u03b9\u03c2). O termo \u201chades\u201d refere-se ao dom\u00ednio dos mortos, mas \u201ca descri\u00e7\u00e3o dos tormentos deixa claro que o homem rico est\u00e1 no inferno\u201d (KEENER, Craig. Coment\u00e1rio Hist\u00f3rico-Cultural da B\u00edblia, 2017, p. 264). Do hades o rico podia ver Abra\u00e3o e L\u00e1zaro, de maneira que ele levantou a cabe\u00e7a \u201cE, clamando, disse: Abra\u00e3o, meu pai, tem miseric\u00f3rdia de mim e manda a L\u00e1zaro que molhe na \u00e1gua a ponta do seu dedo e me refresque a l\u00edngua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, por\u00e9m, Abra\u00e3o: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e L\u00e1zaro, somente males; e, agora, este \u00e9 consolado, e tu, atormentado. E, al\u00e9m disso, est\u00e1 posto um grande abismo entre n\u00f3s e v\u00f3s, de sorte que os que quisessem passar daqui para v\u00f3s n\u00e3o poderiam, nem tampouco os de l\u00e1, passar para c\u00e1\u201d (vs. 24-26). Segundo Craig Keener, \u201ca literatura judaica retratava o inferno como um lugar em que as pessoas eram queimadas. O homem que foi rico e agora sofre no inferno espera receber miseric\u00f3rdia por ser descend\u00eancia de Abra\u00e3o, mas o ju\u00edzo, aqui, fundamenta-se em uma invers\u00e3o futura de status\u201d (2017, p. 264).<\/p>\n\n\n\n<p>Duas importantes observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias. Em primeiro lugar, o castigo e o sofrimento do rico n\u00e3o podem ser revertidos, nem mesmo atenuado. Stanley M. Horton salienta que \u201ctanto o destino dos \u00edmpios quanto o dos salvos n\u00e3o pode ser mudado depois da morte\u201d (2013, p. 49). Em segundo lugar, apesar do silencio quanto \u00e0 f\u00e9 do mendigo, n\u00e3o devemos acreditar que sua salva\u00e7\u00e3o decorre de sua pobreza, ou que a condena\u00e7\u00e3o do rico de sua riqueza. Segundo Craig L. Blomberg, o nome<em>&nbsp;L\u00e1zaro<\/em>&nbsp;\u201c\u00e9 o equivalente grego do nome hebraico Eli\u00e9zer \u2013 que significa \u2013 Deus ajuda. Al\u00e9m disso, o Eli\u00e9zer mais conhecido do per\u00edodo do Antigo Testamento foi o servo fiel de Abra\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 interessante que, em vez de Deus falar aqui (ou, como acontece o tempo todo nas par\u00e1bolas de Jesus, um senhor ou rei ou pai ou pastor, que funcionam como personagem em lugar de Deus), \u00e9 Abra\u00e3o quem tem a fun\u00e7\u00e3o de porta-voz de Deus? Ouvintes judeus profundamente conhecedores de suas Escrituras \u2013 nosso Antigo Testamento \u2013 com praticamente toda certeza teriam feito a associa\u00e7\u00e3o entre Abra\u00e3o e L\u00e1zaro e teriam pressuposto que Jesus estava dando a entender a piedade do pobre\u201d (Pregando as par\u00e1bolas, 2019, p. 61).<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto podemos inferir que L\u00e1zaro era fiel, o oposto pode ser dito do rico. Pela fala de Jesus, depreende-se que o rico sabia o que era certo, mas n\u00e3o praticava. Ele tinha consci\u00eancia de que bem perto dele havia algu\u00e9m que experimentava profundo sofrimento f\u00edsico. Ele estava em condi\u00e7\u00f5es de oferecer grande ajuda ao pobre mendigo, mas n\u00e3o o fez. \u00c9 evidente que ele tinha conhecimento de \u201cMois\u00e9s e os profetas\u201d, ou seja, como um bom judeu, estava familiarizado com os trechos legais e prof\u00e9ticos das Escrituras. Em seu di\u00e1logo com Abra\u00e3o, \u201co rico implora por uma revela\u00e7\u00e3o especial a seus irm\u00e3os, que est\u00e3o vivos na terra, para que assim ainda tenham a chance de \u2018se arrepender\u2019 (vs. 30). Isso sugere que ele compreende que&nbsp;<em>seu<\/em>&nbsp;problema tamb\u00e9m \u00e9 nunca ter se arrependido \u2013 ele nunca teve de fato um relacionamento com Deus durante a vida\u201d (2019, p. 60).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A hermen\u00eautica da invers\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim como L\u00e1zaro desejava comer as migalhas que caiam da mesa do rico; agora, no&nbsp;<em>hades<\/em>, o rico desejava apenas um pouco de \u00e1gua. Um homem que n\u00e3o havia aprendido a dar, agora pedia. Leon L. Morris destaca que provavelmente L\u00e1zaro estava \u00e0 mesa com Abra\u00e3o, denotando uma certa ant\u00edtese com a \u201cmesa\u201d do Rico, no come\u00e7o da hist\u00f3ria. \u201cA grande felicidade do salvo \u00e9 retratada como uma grande festa em que o favorecido reclina sua cabe\u00e7a no seio do grande patriarca (como no caso de Jo 13:23; cf. Mt 8:11). N\u00e3o h\u00e1 nenhuma felicidade semelhante para o rico depois da sua morte\u201d (Coment\u00e1rio de Lucas, 2011, p. 238). No mundo terreno o homem rico fazia banquetes todos os dias; depois da morte, L\u00e1zaro, ao que se presume, participa do banquete escatol\u00f3gico. A mis\u00e9ria de L\u00e1zaro \u00e9 equiparada \u00e0 mis\u00e9ria do homem rico no p\u00f3s-morte, depois da \u201cinvers\u00e3o\u201d (2014, p. 595). A invers\u00e3o se d\u00e1 at\u00e9 mesmo na men\u00e7\u00e3o do nome. Segundo Craig S. Keener, as par\u00e1bolas judaicas, incluindo as hist\u00f3rias rab\u00ednicas, davam nome a um ou v\u00e1rios personagens. Nas hist\u00f3rias normais seria de se esperar a men\u00e7\u00e3o ao nome do rico, n\u00e3o do pobre (2017, p. 263), mas Jesus inverte a situa\u00e7\u00e3o, citando o nome do pobre e deixando no anonimato o rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse recurso ret\u00f3rico da \u201cinvers\u00e3o\u201d \u00e9 bem comum na narrativa de Lucas. O que tinha em abund\u00e2ncia agora passava por priva\u00e7\u00f5es, e o que antes nada tinha, agora desfrutava do consolo. Antes L\u00e1zaro queria algo que o Rico tinha, o alimento, agora, o Rico queria algo que L\u00e1zaro tinha, a \u00e1gua. Esse recurso da \u201cinvers\u00e3o\u201d \u00e9 frequente na narrativa lucana. Os valores do Reino apresentados por Jesus s\u00e3o diametralmente opostos aos valores do mundo. Donald B. Kraybill chama isso de \u201cO Reino de Ponta Cabe\u00e7a\u201d. Ele destaca que \u201cas coisas nos Evangelhos geralmente est\u00e3o de ponta-cabe\u00e7a. Os bonzinhos acabam sendo vil\u00f5es. Aqueles que esperamos que sejam recompensados s\u00e3o corrigidos. Aqueles que pensam que est\u00e3o a caminho do c\u00e9u acabam no inferno. As coisas est\u00e3o invertidas. Paradoxo, ironia e surpresas permeiam os ensinamentos de Jesus. Eles invertem nossas expectativas e as deixam de ponta cabe\u00e7a. Os menores s\u00e3o os maiores. Os imorais recebem perd\u00e3o e ben\u00e7\u00e3o. Adultos se tornam crian\u00e7as. Os religiosos perdem o banquete celestial\u201d (2017, p. 23). E o que n\u00e3o tinha nada (L\u00e1zaro), agora tem tudo, e o que tinha (O Rico), agora n\u00e3o tem nada al\u00e9m de priva\u00e7\u00f5es e tormentos (prefigurada na sede e no fogo). Podemos destacar ainda que a \u00fanica vez que o Rico se importou com L\u00e1zaro, foi quando precisou dele&nbsp;<em>(Manda L\u00e1zaro mergulhar o dedo na \u00e1gua e vir aqui refrescar minha l\u00edngua. Estou em agonia neste fogo!).<\/em>Leon Morris observa que h\u00e1 uma \u201cnota de arrog\u00e2ncia\u201d e \u201csuperioridade\u201d na atitude do Rico para com L\u00e1zaro (2011, p. 238).<\/p>\n\n\n\n<p>Klyne Snodgrass destaca que \u201cas imagens de dois homens e seus destinos s\u00e3o cuidadosamente comparadas\u201d. Havia uma porta que separava L\u00e1zaro do rico&nbsp;<em>(Um mendigo chamado L\u00e1zaro, cheio de feridas, costumava ficar \u00e0 porta da sua mans\u00e3o)<\/em>. \u201cO homem rico vivia de forma opulenta e com honra em um lado da porta, e L\u00e1zaro de forma miser\u00e1vel do outro, uma porta que poderia ter servido como uma abertura para o aux\u00edlio de L\u00e1zaro e que representa o abismo que existir\u00e1 entre os homens depois da morte\u201d (2014, p. 595). Com a invers\u00e3o, diz Klyne Snodgrass, o rico passa a ser o miser\u00e1vel de um lado do abismo e L\u00e1zaro passa a ocupar um lugar de conforto e honra, mas o abismo, dessa vez, n\u00e3o pode mais ser atravessado (p. 595). Ambos desejavam, em v\u00e3o, qualquer \u201csobra\u201d que servisse para aliviar a sua dor, e ambos experimentaram o sofrimento e o tormento (2014, p. 595). A ironia est\u00e1 no fato de que aquele que era costumado a mandar, agora estava pedindo. Mas os pedidos do rico, assim como os de L\u00e1zaro em vida, n\u00e3o foram atendidos. O rico descobriu que era tarde demais para fazer pedidos ou dar ordens.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cMas o rico suplicou: \u2018Permita-me, ent\u00e3o, fazer um pedido. Envia L\u00e1zaro \u00e0 casa do meu pai e de meus cinco irm\u00e3os, para adverti-los. N\u00e3o quero que eles venham parar neste lugar de tormento\u2019.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez na hist\u00f3ria, diz Morris (2011, p. 239), o rico demonstra algum interesse noutras pessoas (mas n\u00e3o pensa nos pobres; fica s\u00f3 no assunto dos seus). Enquanto o rico faz alguns pedidos, L\u00e1zaro, que sempre foi acostumado a pedir, permanece em sil\u00eancio, pois n\u00e3o precisa mais pedir nada. No contexto em que Jesus fala sobre as riquezas, esta par\u00e1bola traz alguns detalhes que devem ser destacados.&nbsp;<em><strong>Primeiro<\/strong><\/em>, n\u00e3o adianta nada ser rico para com os homens e pobre para com Deus (Lc. 12.21);&nbsp;<em><strong>segundo<\/strong><\/em>, \u00e9 uma l\u00e1stima desfrutar de tudo aquilo que o dinheiro pode comprar aqui na terra, mas n\u00e3o poder desfrutar daquilo que Deus tem preparado para n\u00f3s na eternidade;&nbsp;<em><strong>terceiro<\/strong><\/em>, o dinheiro n\u00e3o \u00e9 em si mesmo um mal, mas o amor ao dinheiro sim;&nbsp;<em><strong>quarto<\/strong><\/em>, somos apenas mordomos do Senhor, nada \u00e9 nosso, tudo \u00e9 de Deus, exatamente por isso, devemos saber lidar com aquilo que o Senhor tem colocado em nossas m\u00e3os;&nbsp;<em><strong>quinto<\/strong><\/em>, devemos usar as riquezas a favor do Reino de Deus. Us\u00e1-las com prud\u00eancia e ast\u00facia, de maneira que elas n\u00e3o sejam um empecilho, mas sirvam aos prop\u00f3sitos do Reino.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contar essa par\u00e1bola, onde o rico pede um pouco de para \u201crefrescar a sua l\u00edngua\u201d, Jesus n\u00e3o quer dizer que no inferno a alma vai ter sede, ou algo do tipo, mas mostrar que aqueles que n\u00e3o foram fi\u00e9is a Deus aqui nesta terra, ao morrer, j\u00e1 est\u00e3o em um tipo de tormento. William MacDonald diz: \u201cH\u00e1, de fato, uma d\u00favida se uma alma desincorpada pode sentir sede e ang\u00fastia de uma chama\u201d (Coment\u00e1rio B\u00edblico Popular. 2011, p. 209). Que tipo fogo \u00e9 esse que pode queimar a alma? MacDonald conclui que a linguagem usada \u201c\u00e9 figurativa, mas isso n\u00e3o quer dizer que o sofrimento n\u00e3o era real\u201d (2011, p. 209). No caso do rico, o sofrimento estava simbolizado no fogo que o atormentava de tal maneira, que ele desejava apenas um pouco de \u00e1gua para refrescar a l\u00edngua. Ele sofria com a priva\u00e7\u00e3o de algo t\u00e3o b\u00e1sico, algo que talvez ele n\u00e3o tivesse dado tanto valor em vida, um pouco de \u00e1gua. O rico poderia ter socorrido L\u00e1zaro, poderia ter usado a sua riqueza para aliviar um pouco do sofrimento do moribundo mendigo, mas n\u00e3o o fez. Depois da morte, quem clamava por al\u00edvio era o rico avarento, que havia vivido a vida como se Deus n\u00e3o existisse. Um homem que havia confiado em suas riquezas, e n\u00e3o em Deus. N\u00e3o podemos concluir que a alma do rico estava sentindo literalmente sede, mas sim, que ela se encontrava em tormento pelo fogo do hades. David W. Pao e Eckhard J. Schnabel afirmam que \u201cdiversas passagens do AT se referem \u00e0 sede como uma figura do ju\u00edzo divino\u201d (BEALE, G. K.; CARSON, D. A. Coment\u00e1rio do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. 2014, p. 431).<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus usa de elementos na par\u00e1bola que n\u00e3o devem ser interpretados de forma pormenorizada. A inten\u00e7\u00e3o da narrativa n\u00e3o \u00e9 defender que h\u00e1 sede no inferno, ou algo do tipo, mas mostrar que l\u00e1 \u00e9 um lugar de sofrimento, priva\u00e7\u00f5es e ang\u00fastia. Quando o rico diz: \u201cPai Abra\u00e3o, miseric\u00f3rdia! Manda L\u00e1zaro mergulhar o dedo na \u00e1gua e vir aqui refrescar minha l\u00edngua\u201d, n\u00e3o devemos concluir que a alma tem l\u00edngua; a alma \u00e9 imaterial. De fato, n\u00e3o podemos definir com precis\u00e3o o tipo de sofrimento que os \u00edmpios j\u00e1 est\u00e3o enfrentando no hades, mas uma coisa \u00e9 certa na par\u00e1bola de Jesus, ele \u00e9 real.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A par\u00e1bola do rico e L\u00e1zaro revela profundas li\u00e7\u00f5es sobre a justi\u00e7a de Deus, a responsabilidade social e os valores do Reino. Ela nos lembra que os padr\u00f5es de grandeza e sucesso aos olhos do mundo frequentemente se invertem diante de Deus. A hist\u00f3ria serve como um alerta para o uso respons\u00e1vel dos bens materiais e para a import\u00e2ncia de um relacionamento genu\u00edno com Deus. Al\u00e9m disso, enfatiza que as escolhas feitas em vida t\u00eam consequ\u00eancias eternas, demonstrando a urg\u00eancia de viver de acordo com os princ\u00edpios do Reino de Deus. Assim, a mensagem de Jesus transcende a mera narrativa, desafiando-nos a refletir sobre nossas prioridades e atitudes diante das riquezas, da compaix\u00e3o e da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Jonas J. Mendes<\/p>\n\n\n\n<p>Ministro do Evangelho, Bacharel em Teologia; Pedagogo e Licenciado em Filosofia, p\u00f3s-graduado em Teologia do Novo Testamento e Mestre em Filosofia pela UFMT. Professor de Filosofia e Sociologia na Faculdade Fasipe-CPA e de Teologia na Feics. Membro do Conselho de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura das Assembleias de Deus de Cuiab\u00e1 e regi\u00e3o, e autor do livro \u201cHermen\u00eautica: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o. A par\u00e1bola do rico e L\u00e1zaro, narrada por Jesus em Lucas 16.19-31, \u00e9 uma das hist\u00f3rias mais intrigantes e impactantes do Novo Testamento. Por meio dela, Jesus confronta diretamente os valores sociais e espirituais de seu tempo, questionando a rela\u00e7\u00e3o entre riqueza, pobreza e espiritualidade. 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