{"id":26460,"date":"2026-09-29T10:29:03","date_gmt":"2026-09-29T14:29:03","guid":{"rendered":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/?p=26460"},"modified":"2026-09-29T10:29:04","modified_gmt":"2026-09-29T14:29:04","slug":"muito-odio-pouca-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/index.php\/2026\/09\/29\/muito-odio-pouca-politica\/","title":{"rendered":"Muito \u00f3dio, pouca pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>Entramos na \u00faltima semana da campanha eleitoral para o primeiro turno de 2026 com uma constata\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda: assistimos a uma das campanhas mais pobres em conte\u00fado desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por falta de dinheiro, tecnologia ou comunica\u00e7\u00e3o. Nunca tivemos tantos v\u00eddeos, cortes, redes sociais e possibilidades de falar diretamente ao eleitor. O que faltou foi justamente aquilo que deveria justificar uma elei\u00e7\u00e3o: pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil e os estados praticamente desapareceram da campanha. Economia, emprego, renda, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, infraestrutura e desenvolvimento foram empurrados para o canto. No centro do palco ficaram agress\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es, palavras chulas e a tentativa permanente de destruir reputa\u00e7\u00f5es. Para muitos candidatos, parece mais importante explicar por que devemos odiar o advers\u00e1rio do que dizer o que pretendem fazer se forem eleitos.<\/p>\n\n\n\n<p>A Psicologia Social ajuda a entender essa pobreza. Medo, raiva e indigna\u00e7\u00e3o mobilizam mais rapidamente que argumentos complexos. Na polariza\u00e7\u00e3o, o advers\u00e1rio deixa de ser algu\u00e9m que pensa diferente e passa a ser tratado como amea\u00e7a. A pol\u00edtica abandona a racionalidade e entra no terreno da identidade: j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio demonstrar que minha proposta \u00e9 melhor; basta convencer minha torcida de que o outro \u00e9 intoler\u00e1vel. \u00c9 o triunfo da rea\u00e7\u00e3o sobre a reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Filosofia h\u00e1 s\u00e9culos alerta para o perigo de uma vida p\u00fablica dominada exclusivamente pelas paix\u00f5es. Arist\u00f3teles relacionava a pol\u00edtica \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da vida coletiva e ao bem comum. Hannah Arendt valorizava o espa\u00e7o p\u00fablico como territ\u00f3rio da palavra, da a\u00e7\u00e3o e da pluralidade. Quando substitu\u00edmos argumentos por insultos, n\u00e3o aprofundamos a diverg\u00eancia democr\u00e1tica. Apenas produzimos barulho. E barulho n\u00e3o governa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais preocupante ainda \u00e9 observar candidatos que demonstram desconhecimento b\u00e1sico sobre o cargo que pretendem ocupar. Prometem o que constitucionalmente n\u00e3o poder\u00e3o entregar, confundem atribui\u00e7\u00f5es do Executivo com as do Legislativo e constroem candidaturas inteiras dizendo contra quem est\u00e3o, mas apresentam enorme dificuldade para explicar a favor de qu\u00ea est\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Ci\u00eancia Pol\u00edtica ensina que uma campanha tamb\u00e9m deveria cumprir fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica: apresentar alternativas, estabelecer prioridades e permitir ao eleitor comparar projetos. Uma elei\u00e7\u00e3o deveria responder perguntas simples: qual \u00e9 o diagn\u00f3stico do candidato? Quais suas prioridades? O que pretende fazer? Quanto custar\u00e1? De onde vir\u00e3o os recursos? Que interesses representar\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2026, essas perguntas foram frequentemente soterradas pela agressividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Criamos uma esp\u00e9cie de pol\u00edtica sem objeto: fala-se compulsivamente de pol\u00edtica, mas quase nada de pol\u00edticas p\u00fablicas. Discute-se quem odiar, combater ou derrotar. Enquanto isso, o cidad\u00e3o continua esperando saber quem tem propostas para melhorar sua escola, seu hospital, sua seguran\u00e7a, seu emprego e sua renda.<\/p>\n\n\n\n<p>Democracia n\u00e3o exige candidatos concordando entre si. Exige diverg\u00eancia, confronto de ideias e alternativas. Mas existe uma diferen\u00e7a elementar: divergir exige argumento; ofender exige apenas um microfone.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco \u00e9 terminarmos elegendo representantes n\u00e3o pela capacidade de construir solu\u00e7\u00f5es, mas pela compet\u00eancia em fabricar inimigos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda resta uma semana. Tempo suficiente para devolver \u00e0 campanha aquilo que jamais deveria ter desaparecido dela: o Brasil, os estados e, principalmente, as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser concurso de insultos nem campeonato de indigna\u00e7\u00e3o. Serve para escolher quem governar\u00e1, legislar\u00e1, fiscalizar\u00e1 e tomar\u00e1 decis\u00f5es que afetar\u00e3o milh\u00f5es de vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando uma campanha esquece seu verdadeiro prop\u00f3sito, n\u00e3o \u00e9 apenas a pol\u00edtica que empobrece.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a democracia que perde conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>MidiaNews<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entramos na \u00faltima semana da campanha eleitoral para o primeiro turno de 2026 com uma constata\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda: assistimos a uma das campanhas mais pobres em conte\u00fado desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por falta de dinheiro, tecnologia ou comunica\u00e7\u00e3o. Nunca tivemos tantos v\u00eddeos, cortes, redes sociais e possibilidades de falar diretamente ao eleitor. 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