{"id":25715,"date":"2026-09-05T11:30:04","date_gmt":"2026-09-05T15:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/?p=25715"},"modified":"2026-09-05T11:30:05","modified_gmt":"2026-09-05T15:30:05","slug":"estudo-com-brasileiro-a-frente-faz-homem-sobreviver-com-rim-de-porco-por-271-dias-e-aponta-novo-caminho-para-os-transplantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/index.php\/2026\/09\/05\/estudo-com-brasileiro-a-frente-faz-homem-sobreviver-com-rim-de-porco-por-271-dias-e-aponta-novo-caminho-para-os-transplantes\/","title":{"rendered":"Estudo com brasileiro \u00e0 frente faz homem sobreviver com rim de porco por 271 dias e aponta novo caminho para os transplantes"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Um paciente em est\u00e1gio terminal de doen\u00e7a renal sobreviveu mais de 271 dias com um rim de porco sem precisar de di\u00e1lise&nbsp;<\/strong>\u2013 um tempo recorde. O caso faz parte da pesquisa do brasileiro Leonardo Riella, professor na Harvard Medical School, e coloca a humanidade mais perto de sobreviver com \u00f3rg\u00e3os de animais. Para especialistas, esse \u00e9 um caminho de esperan\u00e7a para as milhares de pessoas na fila por um transplante.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo e sua equipe conseguiram que um paciente terminal de insufici\u00eancia renal voltasse a ter uma vida normal por nove meses. Antes do procedimento, ele dependia de sess\u00f5es frequentes de di\u00e1lise, andava de cadeira de rodas e enfrentava diversas restri\u00e7\u00f5es no dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas, m\u00e9dicos e pesquisadores tentam fazer funcionar o transplante de animais em humanos. A t\u00e9cnica \u00e9 vista como uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o \u00e0 escassez de doadores, que deixa milhares de pessoas \u00e0 espera e submetidas a uma realidade que rouba a qualidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>Para se ter uma dimens\u00e3o do problema, o transplante renal \u00e9 um dos mais realizados no pa\u00eds. Isso porque de um doador falecido, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel atender dois pacientes. Al\u00e9m da possibilidade entre pacientes vivos. Ainda assim, hoje, 45 mil pessoas est\u00e3o na fila, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Para especialistas, a pesquisa marca um dos passos mais revolucion\u00e1rios j\u00e1 dados nessa dire\u00e7\u00e3o. O avan\u00e7o se deve, em grande parte, \u00e0 edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do porco doador: modifica\u00e7\u00f5es que eliminam os principais alvos de rejei\u00e7\u00e3o do corpo humano e reduzem drasticamente a chance de o organismo atacar o \u00f3rg\u00e3o transplantado.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Riella,&nbsp;a expectativa \u00e9 de que o xenotransplante seja uma realidade para pacientes nos pr\u00f3ximos cinco anos, como ponte para o transplante humano. A ideia do m\u00e9dico e pesquisador \u00e9 que seja um processo por etapas, com a ambi\u00e7\u00e3o, a longo prazo, de que o paciente n\u00e3o precise mais de um transplante humano.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um feito in\u00e9dito na medicina<\/h2>\n\n\n\n<p>Tim Andrews, 66 anos, gostava de acampar antes de descobrir a doen\u00e7a renal. Em um ano e meio de di\u00e1lise, o quadro debilitou tanto o paciente que ele passou a se locomover de cadeira de rodas \u2014 uma realidade completamente oposta \u00e0 vida ativa que tinha antes da doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse quadro, ele se tornou candidato ao xenotransplante e recebeu o \u00f3rg\u00e3o de porco em janeiro de 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Pouco tempo depois da cirurgia, ele j\u00e1 tinha uma vida normal. Ele voltou ao acampamento, cortava madeira, carregava peso, comia o que queria, n\u00e3o precisava de di\u00e1lise. Era uma outra vida&#8221;, conta o m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes dele, um paciente da equipe de Riella tamb\u00e9m havia passado pelo xenotransplante, em 2024, mas sobreviveu apenas 52 dias \u2014 morreu por condi\u00e7\u00f5es card\u00edacas sem rela\u00e7\u00e3o com o procedimento. At\u00e9 ent\u00e3o, nenhum paciente havia sobrevivido mais de dois meses com um rim de origem animal no corpo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tim rompeu essa barreira: foram 271 dias com o rim de porco, que precisou ser retirado depois de uma rea\u00e7\u00e3o do sistema imunol\u00f3gico, um dos maiores desafios dos transplantes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Riella explica que o paciente teve uma infec\u00e7\u00e3o bacteriana, o que levou \u00e0 necessidade de reduzir os medicamentos imunossupressores \u2014 respons\u00e1veis por impedir que o corpo rejeite o \u00f3rg\u00e3o transplantado. Com a imunossupress\u00e3o mais baixa, o organismo passou a atacar o rim su\u00edno, at\u00e9 que ele precisou ser removido.<\/p>\n\n\n\n<p>Oitenta e dois dias depois, Tim recebeu um transplante de rim humano, que segue funcionando sem sinais de rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente conseguiu ver o quanto esse tempo de sobrevida com o xenotransplante foi impactante na vida dele. Aprendemos muito com esse caso e esse feito in\u00e9dito \u00e9 um avan\u00e7o para a medicina e para os pacientes. Esse \u00e9 o primeiro passo, evitar que os pacientes fiquem na di\u00e1lise. A ambi\u00e7\u00e3o depois \u00e9 que possa substituir o transplante humano&#8221;, explica Riella.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como um rim de porco pode ser usado por um ser humano?<\/h2>\n\n\n\n<p>O rim usado no caso de Tim n\u00e3o \u00e9 de um porco comum, mas de um animal feito especificamente para esses casos e geneticamente modificado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A primeira mudan\u00e7a mira no maior obst\u00e1culo do xenotransplante:&nbsp;<\/strong>a rejei\u00e7\u00e3o hiperaguda, rea\u00e7\u00e3o imediata e violenta do corpo humano contra o tecido do porco. Ela acontece porque as c\u00e9lulas su\u00ednas t\u00eam, na superf\u00edcie, mol\u00e9culas de a\u00e7\u00facar que funcionam como uma esp\u00e9cie de identidade estranha \u2014 um sinal que o sistema imunol\u00f3gico humano reconhece na hora e ataca<\/p>\n\n\n\n<p>Em laborat\u00f3rio, antes que os animais nas\u00e7am, os cientistas eliminaram os genes respons\u00e1veis por essas mol\u00e9culas. Assim, eles nascem com esse defeito, o que reduz drasticamente a chance desse ataque acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A segunda modifica\u00e7\u00e3o lida com um risco diferente:<\/strong>&nbsp;o DNA dos porcos carrega, naturalmente, fragmentos de v\u00edrus. Eles normalmente ficam inativos, mas existia a preocupa\u00e7\u00e3o de que pudessem se reativar dentro do corpo humano e causar infec\u00e7\u00e3o. Por isso, esses v\u00edrus tamb\u00e9m foram desativados.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, os cientistas inseriram sete genes humanos no material gen\u00e9tico do porco. A l\u00f3gica \u00e9 parecida com trocar pe\u00e7as espec\u00edficas de uma engrenagem para que ela se encaixe melhor em outro mecanismo: esses genes fazem com que o \u00f3rg\u00e3o produza prote\u00ednas mais parecidas com as humanas, o que ajuda o corpo do paciente a reconhecer o rim como menos estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao todo, foram cinco anos de pesquisas com edi\u00e7\u00f5es at\u00e9 encontrar a f\u00f3rmula que pudesse ter a melhor resposta no corpo humano. O processo foi aprovado pelo FDA, a ag\u00eancia reguladora americana.<\/p>\n\n\n\n<p>O que os especialistas apontam \u00e9 que a edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica parece ter encontrado a chave para aproximar o xenotransplante da realidade. A inativa\u00e7\u00e3o de marcadores animais conseguiu aumentar a sobrevida do \u00f3rg\u00e3o no corpo humano.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como isso pode mudar o futuro do transplante?<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas, a medicina busca alternativas para reduzir a depend\u00eancia de doadores humanos, hoje insuficientes para atender \u00e0 fila de pacientes que precisam de um rim.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentes caminhos v\u00eam sendo estudados para resolver esse gargalo, entre eles o desenvolvimento de \u00f3rg\u00e3os artificiais e o pr\u00f3prio xenotransplante. Para Riella e outros especialistas ouvidos pelo&nbsp;<strong>g1<\/strong>, \u00e9 o segundo que est\u00e1 mais perto de se tornar realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o m\u00e9dico, o xenotransplante avan\u00e7a na frente porque faz parte de uma biologia que j\u00e1 existe e funciona. Recriar um \u00f3rg\u00e3o inteiramente artificial e eficiente, segundo ele, ainda exigiria cerca de 20 anos de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cA gente viu que um \u00f3rg\u00e3o animal funciona plenamente em um ser humano. Ele teve a capacidade de regular os minerais e a \u00e1gua exatamente como os rins humanos. Superamos muitos obst\u00e1culos\u201d, explica Riella<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A expectativa do pesquisador \u00e9 que, em cinco anos, o procedimento se torne uma alternativa real para pacientes com insufici\u00eancia renal, ainda que n\u00e3o para todos: a indica\u00e7\u00e3o seria restrita a quem j\u00e1 seria candidato a um transplante humano convencional.<\/p>\n\n\n\n<p>O maior obst\u00e1culo hoje \u00e9 o ajuste da imunossupress\u00e3o, medica\u00e7\u00e3o que evita que o corpo rejeite o \u00f3rg\u00e3o transplantado. Segundo Riella, a resposta imunol\u00f3gica \u00e9 mais intensa logo ap\u00f3s a cirurgia e tende a diminuir com o tempo, mas a equipe m\u00e9dica ainda est\u00e1 testando quais doses podem ser reduzidas com seguran\u00e7a ao longo do tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO tempo mais longo dessa vez nos mostrou mais respostas sobre esse manejo, mas a gente precisa de mais testes cl\u00ednicos observando pacientes para entender melhor essas dosagens\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>A longo prazo, a ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 que esse aprendizado permita ao rim su\u00edno alcan\u00e7ar durabilidade suficiente para competir com o transplante humano \u2014 e, no limite, funcionar de forma praticamente invis\u00edvel ao corpo do paciente, sem depender de imunossupressores.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o m\u00e9dico especialista em transplante, Rafael Pinheiro, a pesquisa traz uma nova perspectiva para m\u00e9dicos e pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cEssas pesquisas nos d\u00e3o uma perspectiva de que, no futuro, a gente consiga n\u00e3o depender mais de doadores falecidos para o transplante. Isso \u00e9 uma nova chance para esses pacientes\u201d, explica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico explica, por\u00e9m, que os estudos est\u00e3o em andamento e, ainda que sejam conclu\u00eddos nesse prazo, existe uma diferen\u00e7a entre o tempo necess\u00e1rio para a tecnologia se tornar realidade e o tempo para ela ser aplicada a milhares de pacientes no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o Brasil tamb\u00e9m vem dando passos nessa dire\u00e7\u00e3o. Em abril, pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) anunciaram o nascimento do primeiro porco clonado no pa\u00eds, em um laborat\u00f3rio em Piracicaba, no interior paulista. O projeto integra o Centro de Ci\u00eancia para o Desenvolvimento em Xenotransplante da USP.<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe segue uma l\u00f3gica semelhante \u00e0 usada nos Estados Unidos: identificou tr\u00eas genes su\u00ednos ligados \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o e aprendeu a desativ\u00e1-los, al\u00e9m de inserir sete genes humanos nos \u00f3vulos dos porcos para aumentar a compatibilidade dos \u00f3rg\u00e3os. A etapa de edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica foi dominada em 2022. Faltava reproduzir esses animais em escala \u2014 da\u00ed a import\u00e2ncia da clonagem.<\/p>\n\n\n\n<p>g1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um paciente em est\u00e1gio terminal de doen\u00e7a renal sobreviveu mais de 271 dias com um rim de porco sem precisar de di\u00e1lise&nbsp;\u2013 um tempo recorde. O caso faz parte da pesquisa do brasileiro Leonardo Riella, professor na Harvard Medical School, e coloca a humanidade mais perto de sobreviver com \u00f3rg\u00e3os de animais. 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