{"id":22722,"date":"2026-05-25T06:54:41","date_gmt":"2026-05-25T10:54:41","guid":{"rendered":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/?p=22722"},"modified":"2026-05-25T06:54:41","modified_gmt":"2026-05-25T10:54:41","slug":"divorcios-caem-mas-seguem-comuns-e-sem-tabu-em-mato-grosso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/index.php\/2026\/05\/25\/divorcios-caem-mas-seguem-comuns-e-sem-tabu-em-mato-grosso\/","title":{"rendered":"Div\u00f3rcios caem, mas seguem comuns e &#8216;sem tabu&#8217; em Mato Grosso"},"content":{"rendered":"\n<p>Houve um tempo em que separar era quase uma senten\u00e7a p\u00fablica. O casamento, mais do que uma escolha afetiva, era visto como destino permanente, sustentado pela lei, pela moral e pelo olhar alheio. Hoje, embora ainda envolva dor, reorganiza\u00e7\u00e3o familiar e decis\u00f5es dif\u00edceis, o div\u00f3rcio deixou de ser esc\u00e2ndalo para se tornar uma possibilidade real na vida de muitos casais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Mato Grosso, os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que o Estado est\u00e1 entre os menores \u00edndices de div\u00f3rcio do pa\u00eds, mas a pr\u00e1tica segue presente no cotidiano. Foram registrados 3.584 div\u00f3rcios em 2024, sendo 2.271 pela via judicial e os demais realizados diretamente em cart\u00f3rios. A taxa foi de 1,3 div\u00f3rcio para cada mil pessoas de 20 anos ou mais, abaixo da m\u00e9dia nacional, de 2,7.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, o n\u00famero de div\u00f3rcios caiu 2,8% ap\u00f3s 3 anos de alta, chegando a 428.301 registros em 2024. Ainda assim, o volume mostra que a dissolu\u00e7\u00e3o do casamento j\u00e1 faz parte da din\u00e2mica social contempor\u00e2nea: para cada 100 casamentos, ocorreram cerca de 45,7 div\u00f3rcios. A dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia das uni\u00f5es tamb\u00e9m diminuiu, passando de 16 anos, em 2010, para 13,8 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a psic\u00f3loga Irani Marang\u00e3o Ferreira, especializada em terapia de casais, os n\u00fameros n\u00e3o falam apenas sobre rupturas, mas sobre uma mudan\u00e7a profunda na forma como as pessoas entendem o amor, a conviv\u00eancia e os pr\u00f3prios limites.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu acredito que a maioria dos div\u00f3rcios no Brasil acontece porque as pessoas mudaram a forma de enxergar os relacionamentos. Hoje existe menos toler\u00e2ncia para rela\u00e7\u00f5es infelizes, frias ou desgastadas. Al\u00e9m disso, muitos casais entram no casamento com expectativas muito altas sobre amor e felicidade, e acabam tendo dificuldade para lidar com os desafios naturais da conviv\u00eancia\u201d, avalia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Do casamento indissol\u00favel ao direito de recome\u00e7ar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A normaliza\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio contrasta com um passado n\u00e3o t\u00e3o distante. At\u00e9 1977, o casamento civil no Brasil era tratado como indissol\u00favel. A legisla\u00e7\u00e3o permitia o chamado \u201cdesquite\u201d, que separava os corpos e encerrava deveres conjugais, mas n\u00e3o dissolvia o v\u00ednculo matrimonial. Na pr\u00e1tica, a pessoa desquitada n\u00e3o podia se casar novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a come\u00e7ou com a Emenda Constitucional n\u00ba 9, de 1977, que abriu caminho para a dissolu\u00e7\u00e3o do casamento. No mesmo ano, a Lei n\u00ba 6.515, conhecida como Lei do Div\u00f3rcio, passou a regulamentar os casos de dissolu\u00e7\u00e3o da sociedade conjugal e do casamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, o processo ainda era mais burocr\u00e1tico do que hoje. A simplifica\u00e7\u00e3o veio d\u00e9cadas depois, com a Emenda Constitucional n\u00ba 66, de 2010, que retirou a exig\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o judicial pr\u00e9via e consolidou o entendimento de que o casamento civil pode ser dissolvido pelo div\u00f3rcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se antes o fim de um casamento carregava o peso da vergonha, hoje ele \u00e9 entendido, em muitos casos, como uma decis\u00e3o de sa\u00fade emocional, autonomia e reorganiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa minha vis\u00e3o, faz muito mais parte de uma transforma\u00e7\u00e3o social do que necessariamente um problema. A forma de se relacionar mudou ao longo do tempo e continua mudando. Hoje as pessoas buscam mais conex\u00e3o emocional, di\u00e1logo, individualidade e felicidade dentro da rela\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, existe menos press\u00e3o para permanecer em casamentos infelizes apenas por obriga\u00e7\u00e3o social\u201d, explica Irani.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando a rotina tamb\u00e9m separa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga observa que a vida moderna tamb\u00e9m tem cobrado um pre\u00e7o alto das rela\u00e7\u00f5es. Jornadas extensas, excesso de responsabilidades, estresse e falta de tempo de qualidade criam dist\u00e2ncias silenciosas. Muitas vezes, o casal n\u00e3o rompe de uma vez: vai se perdendo aos poucos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTamb\u00e9m vivemos uma rotina mais acelerada, com menos di\u00e1logo, mais estresse e menos tempo de qualidade juntos. Ao mesmo tempo, as pessoas est\u00e3o mais conscientes sobre sa\u00fade emocional e passaram a entender que um relacionamento precisa ter respeito, parceria e conex\u00e3o, e n\u00e3o apenas obriga\u00e7\u00e3o de permanecer juntos\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Na leitura da especialista, o div\u00f3rcio n\u00e3o deve ser tratado apenas como fal\u00eancia do casamento. Em muitos casos, ele revela uma sociedade que passou a questionar rela\u00e7\u00f5es mantidas somente pela apar\u00eancia, pelo medo ou pela press\u00e3o familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o eu vejo esse movimento como um reflexo das mudan\u00e7as da sociedade, dos pap\u00e9is dentro do relacionamento e da forma como as pessoas enxergam o amor e a conviv\u00eancia\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Filhos, guarda e novos arranjos familiares<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As mudan\u00e7as tamb\u00e9m aparecem nas decis\u00f5es sobre os filhos. Pela primeira vez na s\u00e9rie hist\u00f3rica do IBGE, a guarda compartilhada superou a guarda unilateral materna nos processos judiciais de div\u00f3rcio. Em 2024, a guarda compartilhada representou 44,6% dos casos, enquanto a guarda concedida apenas \u00e0 m\u00e3e ficou em 42,6%.<\/p>\n\n\n\n<p>O dado aponta para uma reorganiza\u00e7\u00e3o das responsabilidades parentais ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o. O fim do casamento, cada vez mais, n\u00e3o significa o fim da conviv\u00eancia familiar, mas a constru\u00e7\u00e3o de novos formatos de cuidado, presen\u00e7a e corresponsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nem toda crise \u00e9 fim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da maior aceita\u00e7\u00e3o social do div\u00f3rcio, Irani destaca que a decis\u00e3o exige cuidado. Para ela, \u00e9 importante diferenciar a aus\u00eancia de amor do ac\u00famulo de dores n\u00e3o tratadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMinha orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 que o casal tente entender primeiro se o problema \u00e9 a falta de amor ou o ac\u00famulo de dores, m\u00e1goas e dificuldades que n\u00e3o foram bem resolvidas ao longo do tempo. Muitos casais pensam em div\u00f3rcio no auge do desgaste emocional, sem conseguir mais se ouvir com clareza. Por isso, antes de uma decis\u00e3o definitiva, \u00e9 importante abrir espa\u00e7o para di\u00e1logo, acolhimento e, se poss\u00edvel, buscar ajuda profissional\u201d, orienta.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a psic\u00f3loga, h\u00e1 crises que anunciam o fim, mas h\u00e1 outras que apenas revelam a necessidade de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNem toda crise significa fim. \u00c0s vezes ela mostra que a rela\u00e7\u00e3o precisa de ajustes, reconex\u00e3o e novas formas de conviv\u00eancia. Mas tamb\u00e9m \u00e9 importante entender que permanecer junto s\u00f3 faz sentido quando ainda existe respeito, disposi\u00e7\u00e3o dos dois e vontade de construir algo melhor\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O amor tamb\u00e9m exige manuten\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para Irani, a ideia de casal perfeito precisa dar lugar a uma vis\u00e3o mais realista das rela\u00e7\u00f5es. O amor, sozinho, nem sempre sustenta a conviv\u00eancia. \u00c9 preciso presen\u00e7a, escuta, admira\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o di\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu acredito que o segredo de uma boa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de problemas, e sim a capacidade do casal de conversar, se respeitar e escolher um ao outro mesmo nas fases dif\u00edceis. Relacionamentos saud\u00e1veis s\u00e3o constru\u00eddos no dia a dia, com parceria, admira\u00e7\u00e3o, carinho e disposi\u00e7\u00e3o para ajustar o que for necess\u00e1rio. N\u00e3o existe casal perfeito, existe casal que aprende a crescer junto\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, os dados do IBGE mostram uma queda estat\u00edstica. Mas, para al\u00e9m dos n\u00fameros, o div\u00f3rcio continua revelando algo maior: a sociedade mudou. O casamento deixou de ser uma pris\u00e3o simb\u00f3lica e passou a ser, cada vez mais, uma escolha que precisa fazer sentido para os dois lados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o deixem a rela\u00e7\u00e3o chegar no limite para come\u00e7arem a se ouvir. Pequenos di\u00e1logos, demonstra\u00e7\u00f5es de carinho e aten\u00e7\u00e3o no dia a dia fazem muita diferen\u00e7a. E quando a crise acontecer, porque ela pode acontecer em qualquer relacionamento, lembrem-se de que pedir ajuda n\u00e3o \u00e9 sinal de fracasso, e sim de maturidade\u201d, conclui Irani.<\/p>\n\n\n\n<p>gazeta digital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que separar era quase uma senten\u00e7a p\u00fablica. 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