{"id":21223,"date":"2026-03-24T14:38:26","date_gmt":"2026-03-24T18:38:26","guid":{"rendered":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/?p=21223"},"modified":"2026-03-24T14:38:26","modified_gmt":"2026-03-24T18:38:26","slug":"populacao-em-situacao-de-rua-dispara-e-acende-alerta-em-cuiaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/index.php\/2026\/03\/24\/populacao-em-situacao-de-rua-dispara-e-acende-alerta-em-cuiaba\/","title":{"rendered":"Popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua dispara e acende alerta em Cuiab\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p>Dados do \u00faltimo levantamento do Cadastro \u00danico para Programas Sociais (Cad\u00danico) indicam que ao menos 1.783 pessoas vivem nas ruas de Cuiab\u00e1, em 2025. O n\u00famero representa um aumento de mais de 2.775% em compara\u00e7\u00e3o a 2013, quando 62 pessoas foram contabilizadas no sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o crescimento da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, pontos p\u00fablicos da Capital passaram a servir de moradia para quem n\u00e3o tem onde ficar. Entre eles, a Pra\u00e7a Lu\u00eds de Albuquerque, conhecida como Pra\u00e7a do Porto, onde empres\u00e1rios relatam aumento do fluxo de pessoas e maior sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um ponto de venda de artigos para pesca pr\u00f3ximo \u00e0 pra\u00e7a h\u00e1 42 anos, o empres\u00e1rio Valdevino Le\u00e3o acompanha de perto o crescimento do n\u00famero de pessoas que escolhem o local para permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPorque esse pessoal que estava l\u00e1 no Centro veio para c\u00e1. Daqui, ele n\u00e3o tem para onde ir\u201d, relatou o empres\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, o aumento no n\u00famero de pessoas que vivem na pra\u00e7a tamb\u00e9m afetou o faturamento da empresa, que viu o fluxo de clientes diminuir na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cAqui, ultimamente, depois do Aqu\u00e1rio Municipal, passam v\u00e1rias senhoras com crian\u00e7as. \u00c9 muito assustador na nossa \u00e1rea. Eu estou aqui h\u00e1 42 anos com essa empresa. S\u00f3 n\u00e3o fechei porque trabalho com produtos controlados, do contr\u00e1rio, j\u00e1 teria fechado\u201d, contou Valdevino.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, especialistas apontam que se trata de um problema complexo, intensificado pelo ciclo de vulnerabilidade social, falta de pol\u00edticas p\u00fablicas de acolhimento e de servi\u00e7os essenciais, como sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, moradia digna e tratamento de depend\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a psiquiatra, doutora e professora de Psicologia da UFMT, Adriana Rangel, os fatores que levam as pessoas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o variados, incluindo falta de emprego, conflitos familiares e uso de drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu encontrei trabalhadores desempregados, pessoas com sofrimento ps\u00edquico grave, gente que perdeu tudo, jovens com hist\u00f3rias muito traum\u00e1ticas. Muitos n\u00e3o conseguiram se inserir na escola, na fam\u00edlia ou no trabalho\u201d, relatou a professora, que est\u00e1 h\u00e1 10 anos \u00e0 frente do projeto Psican\u00e1lise na Rua, que atende pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua na Capital.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Adriana Rangel, os n\u00fameros alarmantes refletem a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas e de acolhimento capazes de oferecer estrutura para a sa\u00edda da situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEst\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o conseguem sair. \u00c9 como se fosse um manic\u00f4mio de portas e paredes invis\u00edveis. As pessoas se sentem prisioneiras dessa condi\u00e7\u00e3o de rua\u201d, declarou.<\/p>\n\n\n\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia \u00e9 vivida por J\u00falio Silva*, de 22 anos. Vivendo na rua h\u00e1 cerca de dois anos, ele relatou que foi morar na regi\u00e3o ap\u00f3s conflitos familiares.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cEu perdi tudo. Quando a gente quer mudan\u00e7a, as pessoas n\u00e3o acreditam na gente\u201d, contou o jovem em entrevista ao&nbsp;<strong>MidiaNews<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ressaltou que nem todas as pessoas que residem na pra\u00e7a fazem uso de drogas, mas que, por conviver com outros que t\u00eam v\u00edcio, acabam sendo expostos ao consumo.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cAs drogas s\u00e3o para esquecer os problemas da vida\u201d, disse J\u00falio, que acredita que a ajuda para tratamento do v\u00edcio poderia reduzir o n\u00famero de pessoas nesta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o empres\u00e1rio Valdevino Le\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m gera inseguran\u00e7a para comerciantes e para os frequentadores que passam pelo local para acessar o Aqu\u00e1rio Municipal. Durante a visita da reportagem, pequenas ocorr\u00eancias de venda de drogas foram registradas em pontos estrat\u00e9gicos da pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Especialistas, no entanto, destacam que esses epis\u00f3dios n\u00e3o representam a totalidade da popula\u00e7\u00e3o e refletem quest\u00f5es sociais complexas, n\u00e3o comportamentos generalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados do \u00faltimo levantamento da Secretaria Adjunta de Assist\u00eancia Social de Mato Grosso apontam que o desemprego ainda \u00e9 o principal fator que leva a popula\u00e7\u00e3o a viver nas ruas da Capital (28% das ocorr\u00eancias), seguido pelo alcoolismo (21%) e por problemas familiares (18%).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExiste uma ideia muito difundida de que as pessoas est\u00e3o na rua por causa das drogas. Quando comecei a escutar essas pessoas, percebi que isso n\u00e3o era verdade. A popula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais diversa e complexa\u201d, explicou Adriana Rangel.<\/p>\n\n\n\n<p>Com atua\u00e7\u00e3o no projeto h\u00e1 10 anos, frequentando espa\u00e7os como o Beco do Candeeiro e o Centro POP, a professora relatou a gravidade da situa\u00e7\u00e3o que contribui para a perman\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade devido a falta de tratamentos e acolhimento.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201c\u00c9 uma popula\u00e7\u00e3o com muitas doen\u00e7as, feridas, sofrimento mental intenso. H\u00e1 muitos casos de depend\u00eancia e abandono completo. Eles t\u00eam feridas grandes nos p\u00e9s, porque andam muito. E n\u00e3o h\u00e1 um lugar adequado para tratar a doen\u00e7a mental que eles t\u00eam, seja pelo uso de drogas, seja pelo alcoolismo, seja pela psicose, porque a psicose reina solta na rua\u201d, relatou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo a psiquiatra, s\u00e3o poucas as pol\u00edticas p\u00fablicas em vig\u00eancia que oferecem ajuda \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, que cada vez mais passa a ser estigmatizada.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cEles foram segregados da fam\u00edlia e da escola, sempre apartados \u2014 como a parcela que fica \u00e0 margem do pa\u00eds. Esse hist\u00f3rico os empurra para a situa\u00e7\u00e3o de rua, como se esse fosse o \u00fanico lugar poss\u00edvel. E, mesmo ali, n\u00e3o podem permanecer com tranquilidade, porque a pol\u00edcia frequentemente adota uma postura violenta: ao circularem, ao deixarem bancos ou os locais onde est\u00e3o, muitas vezes sofrem agress\u00f5es f\u00edsicas\u201d, acrescentou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acolhimento na Capital<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Secretaria Municipal de Assist\u00eancia Social de Cuiab\u00e1, em 2025 o Centro POP realizou 31.954 atendimentos, oferecendo servi\u00e7os como acolhimento, encaminhamento para unidades de acolhimento institucional, atendimento psicossocial, emiss\u00e3o de documentos, alimenta\u00e7\u00e3o (caf\u00e9 da manh\u00e3), banho, guarda-volumes, doa\u00e7\u00e3o de roupas e cobertores, liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas e atividades coletivas.<\/p>\n\n\n\n<p>O munic\u00edpio tamb\u00e9m conta com Unidades de Acolhimento Institucional, que oferecem atendimento psicossocial, alimenta\u00e7\u00e3o completa (caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o, lanche e jantar), encaminhamento para servi\u00e7os de sa\u00fade, emiss\u00e3o de documentos, inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho por meio do Sine, al\u00e9m de doa\u00e7\u00f5es de roupas, cobertores e produtos de higiene e acompanhamento individualizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Adriana Rangel, coordenadora do projeto Psican\u00e1lise na Rua, as pol\u00edticas p\u00fablicas permanecem insuficientes e prec\u00e1rias, o que dificulta a reinser\u00e7\u00e3o social das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA l\u00f3gica social \u00e9 excludente: quem corre atr\u00e1s, quem consegue um lugar ao sol, muito bem. Quem n\u00e3o consegue, est\u00e1 lascado \u2014 e muita gente est\u00e1 ficando para fora\u201d, finalizou Adriana.<\/p>\n\n\n\n<p><em>J\u00falio Silva \u00e9 um nome fict\u00edcio, usado a pedido do jovem ouvido pela reportagem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Rep\u00f3rter MT<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados do \u00faltimo levantamento do Cadastro \u00danico para Programas Sociais (Cad\u00danico) indicam que ao menos 1.783 pessoas vivem nas ruas de Cuiab\u00e1, em 2025. O n\u00famero representa um aumento de mais de 2.775% em compara\u00e7\u00e3o a 2013, quando 62 pessoas foram contabilizadas no sistema. 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