{"id":18313,"date":"2025-11-28T16:16:02","date_gmt":"2025-11-28T20:16:02","guid":{"rendered":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/?p=18313"},"modified":"2025-11-28T16:16:03","modified_gmt":"2025-11-28T20:16:03","slug":"um-mundo-sem-dor-e-um-mundo-da-nao-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/index.php\/2025\/11\/28\/um-mundo-sem-dor-e-um-mundo-da-nao-verdade\/","title":{"rendered":"Um mundo sem dor \u00e9 um mundo da N\u00e3o-verdade"},"content":{"rendered":"\n<p>Vivemos tempos em que sentir dor virou um problema existencial. A sociedade, ao inv\u00e9s de lidar com o sofrimento, busca anestesi\u00e1-lo. Como explica o fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han (2021), vivemos sob o dom\u00ednio da \u201csociedade do paliativo\u201d \u2014 uma era marcada pela recusa da dor e pela busca compulsiva por conforto emocional. N\u00e3o se trata apenas de fugir das dores historicamente reconhecidas como desumanas (injusti\u00e7as, viol\u00eancia sexual,&#8230;), mas de toda suspeita de dor.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a dor n\u00e3o \u00e9 mais vista como parte da exist\u00eancia, mas como algo que deve ser anestesiado, ignorado ou rapidamente eliminado. A express\u00e3o \u201cpaliativo\u201d \u00e9 uma refer\u00eancia ao tratamento fr\u00e1gil, aquele que tenta aliviar sintomas graves sem lidar com a causa profunda. Da mesma forma, a sociedade contempor\u00e2nea procura suprimir qualquer inc\u00f4modo f\u00edsico, emocional ou existencial, sem enfrentar suas ra\u00edzes. Nesse sentido, Han diz que vivemos numa sociedade <em>algof\u00f3bica<\/em> (uma ang\u00fastia generalizada diante da dor).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa l\u00f3gica, como g\u00e1s, invade todos os espa\u00e7os da vida: nos v\u00ednculos afetivos evitam-se, a qualquer custo, as frustra\u00e7\u00f5es; as espiritualidades s\u00e3o cultivadas para se evitar o sofrimento e na pol\u00edtica evita-se todo tipo de conflito. At\u00e9 em conversas de rua discordar de algu\u00e9m \u00e9 como dar um \u201csoco&#8221; em seu est\u00f4mago. Esse tipo de dor, ou seja, da decep\u00e7\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o, perda, tem-se tornado um esc\u00e2ndalo a ser rapidamente silenciado \u2014 inclusive pela press\u00e3o social por otimismo constante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As democracias liberais, por exemplo, t\u00eam cada vez mais dificuldade em lidar com o conflito pol\u00edtico, com o contradit\u00f3rio e com o dissenso. O ideal de consenso absoluto tornou-se um imperativo, n\u00e3o por busca sincera da verdade, mas por medo de ferir sensibilidades. Esse novo medo desbloqueado gera novos tipos de dores. Quando nos esfor\u00e7amos desesperadamente para eliminar esses conflitos dolorosos, deixamos de acessar experi\u00eancias que estruturam a subjetividade humana. Sem isso, sobra apenas o vazio da autorrefer\u00eancia \u2014 um &#8220;eu&#8221; que gira em torno de si mesmo sem profundidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Essa pol\u00edtica do \u201cn\u00e3o contradit\u00f3rio\u201d \u00e9, na verdade, uma forma disfar\u00e7ada de autoritarismo emocional. Ao evitar o conflito respeitoso, sufoca-se a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o real (HAN: 2022) e promove a superficialidade e a polariza\u00e7\u00e3o. Ao negar todo tipo de negatividade, nega-se a profundidade da experi\u00eancia humana. Ao negarmos a contradi\u00e7\u00e3o, aniquilamos a possibilidade de reflex\u00e3o, elemento essencial a pol\u00edtica e a transforma\u00e7\u00e3o social. Portanto, a sociedade paliativa tende a criar bolhas de prote\u00e7\u00e3o (nas redes sociais, por exemplo) resultando em polariza\u00e7\u00e3o excessiva e destrutiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Paradoxalmente, ao tentar excluir o contradit\u00f3rio\/sofrimento do campo pol\u00edtico, acabamos promovendo a ditadura da conc\u00f3rdia. A exig\u00eancia de consenso se transforma em censura emocional: todos devem concordar, ou ser\u00e3o imediatamente desautorizados (cancelados). Nessa l\u00f3gica, at\u00e9 a possibilidade de mudar de opini\u00e3o se torna amea\u00e7adora! Fr\u00e1geis e d\u00e9beis, esses espa\u00e7os n\u00e3o podem suportar a cr\u00edtica, pois ela carrega um potencial doloroso. \u00c9 v\u00e1lido lembrar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma s\u00edntese, sem que tese e ant\u00edtese se choquem. No entanto, nesse novo espectro \u00e9 prefer\u00edvel, em raz\u00e3o da poss\u00edvel dor, que se tenha apenas teses sem questionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica do tipo paliativo n\u00e3o quer debates, quer apenas consensos. Nesse caminhar, ela n\u00e3o pode ser prudente, pois n\u00e3o tem possibilidade de contradi\u00e7\u00e3o. As democracias est\u00e3o enfraquecendo-se n\u00e3o por falta de elei\u00e7\u00f5es limpas e honestas, ou por aus\u00eancia de um sistema de auditoria eficaz, mas por falta de imunidade. E essa imunidade \u2014 respons\u00e1vel por manter um corpo pol\u00edtico de p\u00e9 \u2014 depende, paradoxalmente, de algum n\u00edvel de sofrimento. Ao expulsarem toda negatividade do outro polo, elimina-se tamb\u00e9m a capacidade de defesa do pr\u00f3prio sistema. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Ao tentar eliminar o sofrimento do espa\u00e7o p\u00fablico, criamos sociedades incapazes de sustentar contradi\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as. Mas sem algum conte\u00fado de dor, n\u00e3o h\u00e1 verdade. E sem verdade, n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica \u2014 apenas o teatro do bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eduardo S. Leite Historiador, Te\u00f3logo e Escritor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos tempos em que sentir dor virou um problema existencial. A sociedade, ao inv\u00e9s de lidar com o sofrimento, busca anestesi\u00e1-lo. Como explica o fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han (2021), vivemos sob o dom\u00ednio da \u201csociedade do paliativo\u201d \u2014 uma era marcada pela recusa da dor e pela busca compulsiva por conforto emocional. 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