{"id":17840,"date":"2025-11-11T15:10:04","date_gmt":"2025-11-11T19:10:04","guid":{"rendered":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/?p=17840"},"modified":"2025-11-11T15:10:05","modified_gmt":"2025-11-11T19:10:05","slug":"a-sombra-de-caim-sobre-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nazarenonews.com.br\/index.php\/2025\/11\/11\/a-sombra-de-caim-sobre-o-brasil\/","title":{"rendered":"\u00a0A sombra de Caim sobre o Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Dr. Eduardo Leite<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ressentimento patrocinou a motiva\u00e7\u00e3o de Caim em matar seu irm\u00e3o. Claro que ele n\u00e3o custeou sozinho: a inveja, a ira e, sobretudo, o orgulho auxiliaram. Deus havia aceitado o sacrif\u00edcio de f\u00e9 de Abel \u2014 aquele que ofereceu o melhor de si \u2014 enquanto o de Caim, feito sem entrega verdadeira, n\u00e3o despertou a mesma aten\u00e7\u00e3o divina. No entanto, o epis\u00f3dio n\u00e3o come\u00e7ou como trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de matar seu irm\u00e3o, Deus ainda lhe dirige a palavra, com uma advert\u00eancia: \u201c<em>Por que est\u00e1s irado? E por que descaiu o teu rosto? Se procederes bem, n\u00e3o \u00e9 certo que ser\u00e1s aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz \u00e0 porta; o seu desejo ser\u00e1 contra ti, mas a ti cumpre domin\u00e1-lo<\/em>.\u201d (Gn 4.6\u20137)<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era uma competi\u00e7\u00e3o sobre quem oferecia o melhor sacrif\u00edcio. N\u00e3o havia plateia, curtidas ou c\u00e2meras. Ainda assim, Caim se deixou consumir por algo que nos \u00e9 tragicamente familiar: a dor de n\u00e3o ser aceito, a sensa\u00e7\u00e3o amarga da rejei\u00e7\u00e3o, a experi\u00eancia comum da derrota. O cen\u00e1rio era lit\u00fargico, um ritual sagrado, mas o que se revelou ali foi a natureza humana em ebuli\u00e7\u00e3o. O autor sagrado registra com precis\u00e3o o instante em que o desejo de vingan\u00e7a, inflamado pelo orgulho ferido, torna-se quase imposs\u00edvel de conter.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa face do desejo, que a hist\u00f3ria passaria a narrar como perigoso e incontrol\u00e1vel, tem um nome: ressentimento. Este surge no seio dos afetos como uma argamassa invis\u00edvel, colando orgulho, inveja e frustra\u00e7\u00e3o \u2014 e projetando tudo isso sobre um culpado externo. Desde ent\u00e3o, ele marca a experi\u00eancia humana. N\u00e3o \u00e9 apenas inveja de n\u00e3o ter o que o outro tem, mas o desejo devorador de v\u00ea-lo pagando por nosso fracasso. N\u00e3o \u00e9 a dor de n\u00e3o ser admirado, mas o impulso de responsabilizar o outro por isso. Ele \u201cespreita entre a retina e a c\u00f3rnea\u201d \u2014 contaminando a forma como vemos o mundo. \u00c9 o sentimento mais primitivo que o ego alimenta quando n\u00e3o consegue lidar com a pr\u00f3pria queda.<\/p>\n\n\n\n<p>Friedrich Nietzsche (1844\u20131900) alertou para esse fen\u00f4meno, descrevendo o ressentimento como a arma dos fracos \u2014 aqueles que, impotentes para agir, invertem os valores da realidade para justificar sua dor. J\u00e1 Max Scheler (1874\u20131928) o definiu como uma deforma\u00e7\u00e3o moral profunda, um veneno da alma que nos impede de ver o bem no outro, transformando todo ju\u00edzo \u00e9tico em mecanismo de autodefesa emocional. A pergunta inevit\u00e1vel \u00e9: ser\u00e1 que tudo isso nos diz algo sobre a pol\u00edtica no Brasil contempor\u00e2neo?<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2026, mais de 150 milh\u00f5es de brasileiros ir\u00e3o \u00e0s urnas para escolher seus representantes \u2014 deputado federal, estadual, dois senadores, governador e presidente da Rep\u00fablica \u2014 distribu\u00eddos em mais de 30 partidos (at\u00e9 o momento). Mas a disputa j\u00e1 come\u00e7ou \u2014 e, \u00e0 primeira vista, parece seguir mais a \u00f3tica de Caim do que a leitura de Abel. Agora sim, \u00e9 uma competi\u00e7\u00e3o. E \u00e9 nesse palco \u2014 feito de holofotes, bolhas digitais e egos inflados \u2014 que o ressentimento segue ditando muitas atua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Pol\u00edticos e eleitores t\u00eam explorado o ressentimento como motor emocional que os impulsiona a agir nesse territ\u00f3rio. Alimentam inimigos imagin\u00e1rios, revanchismos hist\u00f3ricos, humilha\u00e7\u00f5es sociais mal curadas. O discurso deixa de ser propositivo e se torna punitivo. Em vez de sonhar um Brasil poss\u00edvel, o eleitor deseja apenas ver o \u201coutro lado\u201d derrotado, humilhado, cancelado. Em vez de construir pontes, queremos dinamitar as travessias. Em vez de disputar ideias, buscamos o simples \u2014 e sempre perigoso \u2014 sabor da revanche.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua forma mais extrema, a l\u00f3gica de Caim encontra paralelos inquietantes na pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, vale lembrar o caso ocorrido em 2024, na cidade do Crato, interior do Cear\u00e1. Na ocasi\u00e3o, o candidato \u201cDed\u00e9 Eletricista\u201d (PL) foi condenado pela morte do pai de seu advers\u00e1rio pol\u00edtico, Clawdemy Nascimento, da Democracia Crist\u00e3 (DC), assassinado a tiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O ressentimento \u00e9, quase sempre, uma recusa \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o interior \u2014 e isso se tornou um dos maiores dilemas morais da sociedade contempor\u00e2nea. Miroslav Volf, em <em>O Custo da Ambi\u00e7\u00e3o<\/em> (2025), sugere que tal problema est\u00e1 no est\u00f4mago da luta obsessiva pela supera\u00e7\u00e3o do outro como um fim em si mesmo. Em certa altura da luta, torna-se mais f\u00e1cil destruir o outro do que encarar a tarefa \u00e1rdua de mudar a si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa corrida eleitoral, as virtudes costumam ser encurraladas pelos v\u00edcios e desvios morais. \u00c9 nesse ambiente viciado que emergem candidatos e eleitores igualmente tomados por um afeto corrosivo: o ressentimento. Os primeiros buscam o poder ora movidos por revanchismo, ora por uma obsess\u00e3o narcisista com a pr\u00f3pria supera\u00e7\u00e3o. Os segundos, feridos por derrotas anteriores ou desgostosos com a situa\u00e7\u00e3o presente, desejam apenas dar o troco. E quando ambos operam nesse estado emocional, o projeto coletivo se desfaz. O problema, para todos, continua sendo sempre o outro \u2014 e quase nunca n\u00f3s mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso nos leva \u00e0 pergunta mais importante para 2026: com que esp\u00edrito vamos votar? Com sede de vingan\u00e7a ou com desejo de reconstru\u00e7\u00e3o? Com \u00e2nsia por revanche ou com coragem de come\u00e7ar de novo? E com que esp\u00edrito iremos nos candidatar? Ser\u00e1 para corrigir injusti\u00e7as ou para alimentar vaidades? Para servir \u00e0 sociedade ou para se vingar da hist\u00f3ria? O \u201caltar\u201d da pol\u00edtica exige sacrif\u00edcios \u2014 mas jamais o sangue do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sejamos ing\u00eanuos: se Caim n\u00e3o tinha uma competi\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos \u2014 e das grandes. Temos plateia, curtidas, c\u00e2meras e algoritmos sedentos por conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe a n\u00f3s o controle do ressentimento e de seus auxiliares. O espa\u00e7o p\u00fablico precisa ser atravessado por uma \u00e9tica que cultive virtudes capazes de vencer o ressentimento \u2014 que atente para o que Deus disse a Caim: \u201co pecado est\u00e1 \u00e0 porta, mas cumpre a ti domin\u00e1-lo\u201d \u2014 a fim de que possamos promover as verdadeiras mudan\u00e7as de que precisamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso contr\u00e1rio, continuaremos a matar nossos irm\u00e3os \u2014 n\u00e3o com pedras, mas com posts, lacra\u00e7\u00f5es, omiss\u00f5es e irresponsabilidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dr. Eduardo Leite O ressentimento patrocinou a motiva\u00e7\u00e3o de Caim em matar seu irm\u00e3o. Claro que ele n\u00e3o custeou sozinho: a inveja, a ira e, sobretudo, o orgulho auxiliaram. 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