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OABs estaduais lideram ofensiva por código de ética no STF

As representações estaduais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) assumiram protagonismo, nas últimas semanas, na defesa da criação de um código de ética para o Supremo Tribunal Federal (STF). A iniciativa, que busca estabelecer limites claros à atuação dos ministros e afastar situações de conflito de interesse e parcialidade, tem respaldo do atual presidente da Corte, ministro Edson Fachin, como parte de um esforço para recuperar a credibilidade institucional do tribunal.

Há anos, setores da advocacia criticam o crescente protagonismo do STF em temas políticos, econômicos e sociais. A crise de reputação do tribunal, agravada por episódios recentes como o caso envolvendo o Banco Master, acelerou articulações dentro das seccionais da OAB e também no Conselho Federal para promover mudanças estruturais no Judiciário, com foco especial no Supremo.

A seccional de São Paulo tomou a dianteira no movimento. Em 23 de janeiro, a OAB-SP enviou a Fachin uma proposta completa de código de ética, com regras consideradas mais rígidas do que as atualmente em vigor. O texto sugere, por exemplo, a proibição de ministros julgarem processos que envolvam advogados parentes até o terceiro grau ou amigos íntimos, retomando restrições que existiam no Código de Processo Civil e que foram derrubadas pelo próprio STF em 2023.

Pela proposta paulista, caberia aos advogados informar previamente ao STF sua atuação em processos, para impedir a distribuição de ações a ministros com vínculos pessoais. O texto também veda a participação de ministros em eventos, inclusive acadêmicos, organizados ou patrocinados por pessoas físicas ou jurídicas com interesses econômicos em ações no Supremo. Nos casos em que a participação fosse permitida, os valores de despesas com viagens e hospedagem deveriam ser divulgados no site oficial da Corte.

Outras restrições incluem a proibição de cargos de direção ou administração em instituições de ensino, ainda que os ministros possam lecionar, além da recomendação para evitar eventos sociais ou acadêmicos que possam comprometer a percepção de imparcialidade. A proposta também impede o uso de jatinhos oferecidos por empresários com causas no STF e exige reserva absoluta sobre processos em julgamento, vedando manifestações públicas sobre casos concretos ou temas político-partidários.

Eventuais violações poderiam ser denunciadas por autoridades como o presidente da República, chefes do Congresso, o procurador-geral da República, além de entidades como a OAB Nacional, a Associação Brasileira de Imprensa e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. As denúncias seriam analisadas pelo plenário do próprio STF.

A mobilização se espalhou rapidamente por outras seccionais. No Paraná, a OAB estadual promoveu um ato público com entidades do setor produtivo e movimentos civis para denunciar a insegurança jurídica atribuída à atuação do Supremo. O presidente da OAB-PR, Luiz Fernando Casagrande Pereira, afirmou que o tribunal enfrenta uma crise de legitimidade que ameaça todo o sistema de Justiça. Segundo ele, sem um Supremo independente, imparcial e legítimo, a democracia brasileira fica fragilizada.

Em Minas Gerais, o presidente da OAB-MG, Gustavo Chalfun, também defendeu o código de ética como instrumento de aprimoramento institucional, e não de confronto. Para ele, a ausência de limites claros e de mecanismos de autocontenção gera insegurança jurídica, enfraquece garantias constitucionais e impacta diretamente o exercício da advocacia e o devido processo legal.

Outras seccionais ampliaram o escopo do debate. No Rio Grande do Sul, uma carta aberta da OAB-RS defende mudanças mais profundas no STF, como a criação de mandatos para ministros, a limitação de decisões monocráticas e maior transparência em processos sob sigilo. Em Pernambuco, a OAB-PE enviou ofício ao Supremo pedindo normas claras e mecanismos de responsabilização. No Mato Grosso do Sul, o presidente da seccional defendeu o fim da vitaliciedade, com mandatos de até dez anos para os ministros.

Diante da pressão das seccionais, a OAB Nacional também se posicionou. Em artigo publicado em janeiro, o presidente do Conselho Federal, Beto Simonetti, defendeu uma reforma mais ampla do Judiciário e lembrou que a Ordem historicamente propõe limites à atuação de advogados com parentes magistrados, embora essas restrições tenham sido derrubadas pelo STF. Simonetti reconheceu a legitimidade do debate, mas alertou para a necessidade de prudência e soluções institucionais de longo prazo.

Nos bastidores, a iniciativa da OAB-SP gerou incômodo na cúpula nacional da entidade, que interpretou o envio de uma proposta fechada ao STF como um movimento de insubordinação. Em ofício encaminhado a Edson Fachin e à ministra Cármen Lúcia, relatora do tema no Supremo, dirigentes da OAB Nacional defenderam cautela e rejeitaram soluções consideradas imediatistas.

O debate extrapolou a advocacia e passou a mobilizar outros setores da sociedade civil. Mais de 60 entidades assinaram um manifesto em favor do código de ética, argumentando que a instabilidade jurídica afasta investimentos e compromete o desenvolvimento econômico. Para os signatários, previsibilidade, transparência e autocontenção são condições essenciais para restaurar a confiança no Supremo e fortalecer o Estado Democrático de Direito.

Com apoio crescente e pressão institucional, o movimento por um código de ética no STF se consolida como um dos principais eixos do debate sobre a reforma do Judiciário no país, ainda que seus defensores reconheçam que a medida, isoladamente, não seja suficiente para resolver todos os problemas da Corte.

Folha do estado

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