20 outubro, terça-feira, 2026
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Adolescente indígena é estuprada por cinco homens; crime foi filmado e divulgado 

Uma adolescente indígena de 15 anos foi vítima de estupro coletivo praticado por cinco homens, com idades entre 22 e 50 anos, na comunidade Catitu, localizada na zona rural de Itamarati, no interior do Amazonas. O crime ocorreu em setembro e foi gravado pelos envolvidos. As imagens foram posteriormente compartilhadas em grupos de WhatsApp e circularam em diferentes regiões do país.

O caso veio à tona após uma mulher que não conhece a vítima ter acesso aos vídeos e denunciar o crime às autoridades. Até o momento, dois investigados foram presos, enquanto outros três são considerados foragidos da Justiça.

Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, os suspeitos teriam se referido à violência sexual como uma espécie de “cobrança” contra a adolescente. A motivação mencionada pelos envolvidos, no entanto, ainda não foi esclarecida pelas autoridades.

As gravações mostram diferentes momentos da violência praticada contra a jovem. O material foi compartilhado inicialmente em dois grupos indígenas, mas acabou circulando para além desses canais. Os investigados afirmaram não saber quem foi responsável pela disseminação dos vídeos.

Cinco homens foram identificados no decorrer das investigações. As ordens de prisão foram expedidas no fim de setembro.

Entre os suspeitos que permanecem foragidos estão Kodo Isaias Kanamari, de 22 anos, e Tucuwi Carlinhos dos Santos Kanamari, de 25. O nome do terceiro homem procurado não havia sido divulgado.

Um dos investigados, conhecido como “Zeca Bomba”, de aproximadamente 50 anos, foi preso em 9 de outubro. Ele é apontado como o único homem não indígena do grupo.

Já Awano Rafael Kanamari, de 33 anos, suspeito de ter filmado as cenas do crime, foi preso na segunda-feira (19), após se apresentar à polícia de Itamarati.

O caso envolve acusações de estupro, favorecimento pessoal e crimes relacionados à produção e divulgação de imagens de violência sexual envolvendo adolescente. A apuração considera dispositivos do Código Penal e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

De acordo com as autoridades locais, a adolescente, pertencente ao povo Kanamari, recebe atendimento médico e psicológico especializado. Ela também foi matriculada em uma escola.

A divulgação das gravações ampliou a preocupação com a exposição da vítima e os impactos da violência. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi procurada para informar quais medidas de proteção e articulação com outros órgãos públicos estão sendo adotadas, mas não havia respondido até a publicação das informações originais.

A advogada indígena Inory Kanamari, que acompanha o caso, afirmou que o episódio evidencia a invisibilidade enfrentada por mulheres indígenas vítimas de violência. Segundo ela, a origem étnica e a condição socioeconômica podem influenciar a repercussão dos casos e a resposta das instituições.

“Os corpos das mulheres indígenas parecem continuar ocupando um lugar de menor importância na atenção pública. É impossível não refletir sobre como a origem étnica e a condição socioeconômica influenciam a visibilidade de uma vítima, a mobilização da sociedade e a resposta das instituições”, declarou.

Apesar das críticas, Inory reconheceu o trabalho da Polícia Civil de Itamarati na identificação e prisão dos investigados, destacando as limitações estruturais enfrentadas pela delegacia local.

Segundo a advogada, as prisões representam um avanço para a investigação, embora as equipes policiais atuem em condições precárias e, em algumas situações, arquem com despesas necessárias às diligências.

Conforme informações apuradas sobre o caso, o delegado responsável teria utilizado recursos próprios para abastecer uma embarcação cedida pela prefeitura durante as buscas por “Zeca Bomba”. Na ocasião, a estiagem dificultava o deslocamento pelos rios e o abastecimento de combustível na região.

A advogada Amanda Pinheiro, do Instituto As Manas, que também atua no processo, ressaltou as dificuldades de acesso às políticas públicas de proteção para mulheres indígenas vítimas de violência sexual.

“É crime hediondo, violação de direitos humanos, invisibilizado por se tratar de adolescente indígena, oprimida pela cultura da responsabilização e desvalor da vítima”, afirmou.

Amanda também criticou a falta de acesso a serviços públicos adequados nas localidades indígenas e defendeu maior atenção institucional para casos dessa natureza.

Casos de violência contra crianças e adolescentes podem ser denunciados anonimamente pelo Disque 100. Também é possível acionar a Polícia Militar, pelo 190, a Polícia Civil, pelo 197, o Ministério Público e os Conselhos Tutelares.

A identidade e a privacidade da adolescente devem ser preservadas, assim como a circulação de imagens que exponham a violência sofrida pela vítima.

Folha do Estado

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