A pneumologista Keyla Maia, coordenadora do programa Inspirar da Unimed Cuiabá, alertou que o uso de cigarro e vape não afetam apenas os pulmões. A nicotina provoca alterações no cérebro, enquanto a fumaça e as substâncias inaladas inflamam os vasos sanguíneos e podem causar alterações no DNA associadas a diferentes tipos de câncer.
A especialista explicou que, ao longo dos anos, esse processo pode aumentar o risco de infarto, Acidente Vascular Cerebral (AVC), tumores, enfisema, bronquite crônica, tuberculose e diabetes, além de causar danos à circulação que podem levar até à impotência sexual.
“É uma arteriopatia, um aumento de pressão, aumento da frequência e uma alteração cerebral, fora as mutações ligadas ao DNA, que são lentas, mas que são responsáveis por vários tipos de tumores”, afirmou em entrevista ao MidiaNews.
Segundo ela, os efeitos são silenciosos no início e, justamente por isso, muitos jovens não percebem que o organismo já está sendo afetado.
Keyla alertou ainda para o impacto sobre quem não fuma, mas convive com fumantes. Segundo ela, o tabagismo passivo pode provocar as mesmas doenças do tabagismo ativo e é especialmente prejudicial às crianças. “São fumantes. Eles adoecem das mesmas coisas”, afirmou Keyla.
Uma pesquisa do A.C. Camargo Cancer Center, divulgada em agosto, apontou que 19% dos brasileiros entre 16 e 24 anos, faixa que integra a Geração Z, são fumantes de cigarros convencionais ou eletrônicos. O índice é superior ao registrado entre pessoas de 25 a 40 anos (15%) e de 41 a 59 anos (17%).
Para a pneumologista, a popularização do vape entre os jovens pode ampliar ainda mais esse problema, justamente porque a fumaça do cigarro eletrônico provoca menos irritação imediata e acaba sendo mais aceita pelos usuários e por quem está ao redor.
“O cigarro é um grande matador. As pessoas continuam adoecendo. De cada 10 pessoas que fumam, cinco vão morrer por doenças associadas ao tabaco. Com certeza, vai ser uma multidão de doentes [nos próximos 30 anos]”, afirmou.
Keyla também chama atenção para o impacto econômico do tabagismo sobre o sistema de saúde. Segundo ela, a cada R$ 1 pago pela indústria em impostos, o Governo gasta R$ 5 no atendimento aos doentes, incluindo a saúde suplementar.
Durante a entrevista, a pneumologista comparou os efeitos do cigarro, do vape e do narguilé, falou sobre os sinais que o organismo dá antes do adoecimento e orientou quem decidiu abandonar o vício.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – Se hoje praticamente todo jovem sabe que fumar faz mal, por que essa informação já não é suficiente para impedir que ele comece a fumar?
Keyla Maia – Percebo um paradoxo. Por um lado, nunca se conheceu tanto. Quando eu era jovem, era bonito fumar, era charmoso, era poder. Os carros de corrida tinham um Marlboro, o famoso “cowboy”. Depois veio a triste constatação de que nós fomos enganados e que, na verdade, o tabagismo é um grande matador, fruto de uma indústria extremamente poderosa, com recursos maiores que muitos países, que manipula as leis por meio do lobby e cujo único objetivo é ganhar dinheiro, como todo negócio.
Veio a queda. O Brasil é campeão mundial em queda de tabagismo, uma referência. Eu creio que a pandemia foi um divisor de águas. As pessoas começaram a ficar enclausuradas, a comunicação passou a ser pelas redes sociais. Houve uma espécie de depressão, de falta de esperança. Três anos para quem tem 14 anos é diferente do que para alguém da minha idade, que nem vê passar. A partir dos 10, 11 anos, as pessoas começam a experimentar e a dependência surge em média entre 13 e 15 anos.
E, para completar, vemos as questões trabalhistas. Elon Musk afirma que, em 2030, haverá mais robôs no mundo do que pessoas, que várias profissões vão desaparecer. Como ficam, nessa idade, os sonhos? O posicionamento? O “gás” para querer viver?
Com o conhecimento, eu sei que mata. E, apesar disso, eu uso. Chego à conclusão de que as pessoas não estão muito interessadas na vida. É muito mais complexo. Todo mundo sabe que fumar faz mal. A gente fica enxugando gelo. “Fumar faz mal. A sua vida tem valor”. Será que, para ele, tem valor?
O cigarro é um grande matador. As pessoas continuam adoecendo. De cada 10 pessoas que fumam, cinco vão morrer por doenças associadas ao tabaco. E a gente vai lutar pela vida, ao contrário da indústria. A gente vai lutar pela vida por meio da informação.
MidiaNews – A senhora tem percebido esse aumento de fumantes jovens no consultório?
Keyla Maia – Não, porque o jovem não procura ajuda. Ele se acha. “Está tudo certo. O vape não faz mal. Eu paro quando eu quiser”. O problema do jovem é a prepotência, a arrogância, o desprezo pelas gerações anteriores. O idoso é descartável. A experiência é descartável. A dor de perder alguém pelo tabagismo: “Não, comigo não vai acontecer”.
A informação é de que houve um aumento de 600% no uso do vape, apesar de ser proibido. No vape tem nicotina, uma das drogas mais potentes em causar dependência. E, para piorar, o vape não usa mais nicotina “ecológica”, que vinha da planta. Agora é nicotina sintética e a dependência é muito maior. A absorção é mais rápida e a percepção é menor.
Ela não arde a garganta, não queima a boca. É tudo suave. Foi um grande “pulo do gato da indústria”: fizeram um lobby em cima de que é menos nocivo e é altamente viciante. As pessoas usam achando que vão parar quando quiserem. Não param. Você se torna um dependente químico, como qualquer outro. Então, quando você vê um “noiado” na rua, olha bem para o pé dele, você é um. Só que você está todo bonitinho, arrumadinho, mas não consegue largar a nicotina quando quer.
MidiaNews – O que acontece no organismo de um jovem quando ele começa a fumar? Quais são os efeitos da nicotina?
Keyla Maia – A nicotina gera primeiro uma alteração cerebral. Os receptores de nicotina vão se multiplicando e, a partir daí, vão solicitando a droga. Existe uma transformação da estrutura cerebral, liberando o neurotransmissor que leva ao relaxamento, à redução do constrangimento social. Alguns a usam para atenção quando precisam se concentrar, estudar, ler.
Em termos gerais, gera um processo inflamatório a nível de pulmão, em maior ou menor grau, dependendo do quanto você usa e da sua genética. Tem gente que fuma pouco e adoece muito, e tem gente que fuma muito e adoece pouco. No aparelho respiratório, aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial, tudo muito sutil. A pessoa não consegue perceber naquele momento.
Essa inflamação atinge também os vasos sanguíneos do corpo inteiro. Por exemplo, chega ao pâncreas, tanto que, a longo prazo, o diabetes é uma das doenças associadas ao tabagismo, porque ele vai destruindo a circulação periférica, inclusive a circulação peniana. É também uma causa de impotência sexual.
Então, há uma arteriopatia, aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, além de alterações cerebrais. Isso sem falar nas mutações ligadas ao DNA, que ocorrem lentamente, mas estão relacionadas ao desenvolvimento de vários tipos de tumores. Há, inclusive, aumento da incidência de câncer de mama, que aparentemente não teria relação com o cigarro, mas tem.
Além disso, há toda a questão dos órgãos afetados pelas substâncias do cigarro ao longo do organismo, incluindo a bexiga, por onde parte delas é eliminada.
MidiaNews – Quais são as principais doenças que um fumante pode desenvolver ao longo da vida?
Keyla Maia – A primeira causa de óbito de quem fuma não é o pulmão. É o infarto agudo do miocárdio, por essa doença arterial, que vai tornando as artérias rígidas pela inflamação. Lembrando que as mulheres têm a coronária mais fina que os homens. Elas adoecem do coração muito mais rápido do que eles.
Depois vem o derrame, acidente vascular cerebral, junto com o infarto agudo, como causa de óbito.
Depois vêm os tumores. Tumor de boca, de garganta, de estômago, de bexiga, linfoma, leucemia. Enfim, são muitos os tumores que trazem o óbito em função da mudança do DNA. O cigarro tem esse poder de alterar a estrutura do DNA. Depois vêm as doenças pulmonares. A primeira é o famoso enfisema. Imagine uma roupa comida por traças, cheia de buracos. O enfisema faz um monte de buracos no pulmão e ali não tem mais nada, não ocorre respiração. Por isso é uma doença tão difícil de tratar. Quando a pessoa procura precocemente, ela tem condição de frear. Quando a pessoa para de fumar, todo aquele processo regride. Não para, mas regride. Se ele estava indo a 100 por hora, vai passar a 20 por hora. Conseguimos reduzir a evolução.
O câncer, quando não responde ao tratamento, mata muito rápido, em até dois ou três anos. O enfisema, não. São seis, oito anos, e vai cortando o fôlego da pessoa até ela já não conseguir, por exemplo, tomar banho sozinha. Então, é uma doença que produz muito sofrimento.
Tem o enfisema puro, que é falta de ar, que a pessoa às vezes atribui ao sedentarismo ou sobrepeso. Mas tem o misto com bronquite crônica, que são os escarradores. Tem paciente que produz muita secreção. É um problema social. Numa entrevista como essa, ele já teria tossido várias vezes e escarrado.
Depois vem a tuberculose, que ainda é uma grande causa de óbito no mundo. Ela é muito mais frequente em quem fuma, porque as defesas pulmonares diminuem. Depois vem o diabetes, cuja frequência é muito maior em quem fuma.
Se a mulher fuma enquanto está gestando, as crianças tendem a ser pequenas, prematuras e vítimas de óbito súbito no primeiro ano de vida.
Vale a pena falar aqui do tabagismo passivo. Foi feito um trabalho no Hospital Infantil, no Paraná, em que de todas as crianças internadas por problema respiratório, seja asma, pneumonia ou bronquiolite, 98% eram filhos de fumantes. Quer dizer, eles são fumantes. E você consegue dosar a quantidade de cigarro que eles fumam por meio da urina, por uma substância chamada cotinina.
MidiaNews – Podemos dizer que fumantes passivos são fumantes?
Keyla Maia – São fumantes. Eles adoecem das mesmas coisas. Já me aconteceu mais de uma vez: a esposa de um fumante chega com câncer de pulmão relacionado ao tabagismo e o marido nem doente está. Você vai conversar e ele fuma dentro de casa, às vezes, dentro do quarto. Então, o tabagismo passivo é tão letal quanto o tabagismo ativo. Se você rói sua unha, o problema é seu. Mas, se você fuma, o problema é nosso. Você vai adoecer as pessoas ao seu redor.
Lembrando que a incidência de alergia é muito alta, em torno de 30% da população, e a fumaça do cigarro é extremamente irritante.
Aí entra o vape na enganação, porque ele não dá essa irritação. Então, as pessoas aceitam.
MidiaNews – O cérebro ainda está em desenvolvimento durante a adolescência e o início da vida adulta. Eles se viciam mais rápido do que os adultos?
Keyla Maia – Se viciam da mesma forma. O que muda é a consciência do problema. O jovem tende a minimizar. O adulto já sabe que aquilo vai ter consequência, e a tendência é evitar o uso. Menos de 5% das pessoas começam a fumar a partir dos 20 anos. A maioria começa antes.
Mas o que pode ter alteração cerebral — e aí eu talvez não seja autoridade para falar — é a neuroplasticidade no sentido da formação, da maturidade, da consciência, da tomada de decisão, aquela transição de ser adolescente, de achar que é dono do mundo e que o mundo gira ao seu redor, e a questão de você se posicionar com responsabilidade diante da sua vida, sabendo que você é quem é responsável pelas suas escolhas.
MidiaNews – Do ponto de vista pneumológico, o cigarro convencional, o vape e o narguilé fazem mal da mesma forma?
Keyla Maia – Isso vai depender muito do quanto se usa. Por exemplo, o narguilé: uma sessão de narguilé de uma hora corresponde a cinco maços de cigarro fumados. São cem cigarros. É diferente se você dá uma pitadinha de alguém e fica sentada naquela roda. Então, essa é a primeira coisa: o quanto eu uso.
O cigarro tradicional, além da nicotina, tem já catalogadas mais de 5 mil substâncias. Ele tem um poder de agressão maior, não em termos de nicotina e de dependência. Um cigarro industrializado contém um miligrama de nicotina. Já o vape nem se sabe direito o que se tem, quanto se tem. Não é legalizado, tem sido estudado, cada hora vem de uma origem. Já se pegou vape com até 32 miligramas de nicotina.
Isso vai trazer uma falsa impressão de que não está me agredindo, porque é vapor de água, não tem aquele alcatrão, aquele cheiro de cigarro. Mas o conteúdo é agressivo. Então, é uma pergunta difícil de responder. Já o narguilé, se você usar só tabaco, porque tem quem misture cannabis e por aí vai, você vai ter essa correspondência: uma hora, cinco maços.
Mas o vape não dá para falar, porque a quantidade de nicotina é muito maior, sem controle nenhum.
A indústria do cigarro não pode produzir cigarro com mais de um miligrama de nicotina, porque ela é uma droga legalizada, vigiada, controlada, tem controle de qualidade como qualquer coisa. Paga imposto.
MidiaNews – A pesquisa aponta que 19% dos jovens da Geração Z são fumantes. O que podemos esperar daqui a 10, 20 ou 30 anos?
Keyla Maia – Você vai cair naquela estatística de que metade deles vão estar doentes. Não é todo mundo. Eu nunca esqueço o desfavor que o Oscar Niemeyer fez no aniversário de 100 anos, ele soprando a vela com cigarro na mão. É um desfavor, é pensar só em si: “Não me fez mal”, mas fez para quanta gente?
É igual a uma roleta-russa. Você tem uma arma, cabem seis balas e te colocam três para você fazer a sua roleta-russa. Alguém vai morrer. Metade deles vai estar doente e caminhando para o óbito. Com certeza, vai ser uma multidão de doentes.
O que é um problema para o país, porque, a cada R$ 1 que a indústria paga de imposto, o governo gasta R$ 5 cuidando dos doentes, incluindo a saúde suplementar, como a Unimed. Então, o que a indústria paga de imposto não chega nem perto do que aquelas pessoas vão dar de despesa para a saúde.
Fora o gasto da própria pessoa. Por exemplo, no caso do câncer, existe também um custo para a família. São três, quatro pessoas envolvidas, levando, buscando, acompanhando e dando apoio. Se você tem um enfisema pulmonar começando, precisa tratar a tosse, o catarro e a falta de ar. Tem medicações que custam R$ 400 a caixa por mês. É um único remédio. Quanto a pessoa passa a gastar depois para conseguir respirar? Existe o custo social para a família, o custo para a gestão da saúde e o custo pessoal.
MidiaNews – Um fumante que interrompe o vício consegue recuperar os órgãos já afetados?
Keyla Maia – Vai depender da quantidade e do tempo que ela fumou e da genética. Tem doenças que surgem com dois anos de tabagismo e precisam até de transplante de pulmão. Inclusive, com o vape, a doença chamada EVALI é uma inflamação que já matou vários adolescentes.
Mas, independentemente disso, a pessoa que para de fumar melhora. Melhora rápido a frequência cardíaca, a pressão arterial e a tosse.
Muitas vezes, o paciente procura a gente: “Ah, doutora, não paro de tossir. Já fui nesse e naquele especialista” e fuma. Então, a pessoa vive como se fosse no mundo do Peter Pan. Ela quer fumar porque fumar dá prazer, traz aquela repercussão emocional toda, mas não quer os sintomas que o cigarro traz.
MidiaNews – Para os jovens ficarem alertas, que sinais no organismo indicam que estão adoecendo?
Keyla Maia – O nariz. As pessoas me procuram muito porque estão tossindo. Aí eu pergunto do nariz. “Não, não tenho nada.” Quando eu vou examinar, mais de 80% têm o nariz inflamado. As pessoas não percebem, porque respiram mal pelo nariz a vida inteira. Elas acham que é normal. A pessoa vai usando a droga e essa mudança acontece devagar, elas não percebem.
MidiaNews – O que significa ter o nariz inflamado?
Keyla Maia – O nariz inflamado é meio inchado, pode não ter muco nenhum. A pessoa tende a respirar pela boca quando dorme e aquilo é uma causa de doença pulmonar. Porque o nariz é posto para fora como se fosse uma parabólica, está ali para defender o pulmão, tem pelo, tem sistema para segurar as bactérias. Tudo é para virar caca de nariz, não é para ir parar no pulmão. Mas as pessoas não percebem isso. Joga bola, corre, não percebe e, com o tempo, vai se acostumando, acha que é porque está sem fazer exercício.
MidiaNews – Para quem já fuma e quer parar, qual seria a principal orientação?
Keyla Maia – Fumar faz mal. Os jovens precisam se informar o mais profundamente possível a respeito disso, acreditar nisso e fazer escolhas mais maduras para evitar consequências ruins. E, havendo a decisão de parar, porque tem que ser pessoal, não adianta se pressionar. Temos, por exemplo, um programa multiprofissional na Unimed, com toda a medicação gratuita para os usuários da Unimed Cuiabá. Ninguém para de fumar hoje sem usar R$ 400, R$ 500 de remédio por semana. Sai caro. Então, busque ajuda.
MidiaNews – Que programa é esse e como ele funciona?
Keyla Maia – É o Programa Inspirar. Ele é fantástico. Funciona por oficinas, tem médico presente em toda oficina, psicólogos e nutricionista, porque 85% ganham peso e as mulheres, entre fumar e engordar, elas vão fumar. Tem fisioterapeuta para ensinar manobras de respiração. É um programa fantástico.
Midianews




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